por me fazer voltar a escrever. Desde ontem, como era de esperar, a mesma imagem está sendo veiculada em todo o mundo, porque o ex-CEO da Apple morreu. Ok. Desde ontem, proliferam-se comentários homenageando o responsável por desenvolver novas maneiras de acessar a tecnologia e, certamente, cá está um grande mérito. Acontece que Steve Jobs não aproximou a tecnologia das pessoas. Apesar de ter os preços reduzidos com a expansão das vendas ao mercado chinês, a tecnologia manteve-se acessível a poucos. Mais do que no passado, definitivamente, mas por uma conjuntura que propiciou, carregada por diversos homens de caráter duvidoso ou não, que o computador se tornasse pessoal, prático, menor do que as enormes máquinas que à época existiam. Isso é inegável. Não pretendo discorrer sobre implicações políticas, perspectivas excludentes, minoria privilegiada. Estes são pontos que, se ainda negligenciados, é necessário que se façam presentes intrinsecamente ao discurso.
O que tenho visto, entretanto, são odes ao criador da Apple, ao visionário, ao gênio, ao criativo Steve Jobs. São AGRADECIMENTOS. Posto que ele não contribuiu para a melhoria da vida de ninguém (publicitários e seus Macs, me desculpem, mas isso é balela), não entendo por que agradecer a um homem distante, que apenas imbuiu-se plenamente do espírito vigente na sociedade, buscando o retorno financeiro e a satisfação pessoal hedonista – que surge como possibilidade instantânea no princípio de qualquer ideia – e que, felizmente, carregou nos mesmos intentos um viés interessante de evolução da tecnologia.
Mas, ao que tudo indica, Steve Jobs nunca fez nenhum destes seus fãs, alguns deles auto proclamados ontem, à hora da morte, mais felizes. A tecnologia viria, e independeria das suposições de uma mente fervilhante, mas da conjunção de ideias (por vezes furtadas) que culminou no que temos hoje à disposição.
Ao grunhir que teatro é mais importante que Steve Jobs (por favor, não tomem meu exemplo se acaso acharem demasiado poético), minha mãe retrucou que infelizmente, teatro custa caro. Ela só havia escutado um dos meus pressupostos. Ora, Apple também é cara. Também está distante de milhares de criaturas que sequer têm um pc velho na escola. Incentivar cultura nestas pessoas é uma tarefa árdua, demanda tempo, dinheiro, investimento em educação e desconstrução de uma mentalidade deveras arraigada.
Isso tampouco é novidade. A infelicidade consiste em que grande parte dos que têm dinheiro para saborear a maçã não possuem neles incutida a valorização de importâncias também virtuais, como as experiências sensoriais provenientes do teatro e de qualquer outra programação inteligente. A moda ditou há pouco que é tendência parecer genial, como os caricatos meninos pubescentes dos filmes dos anos 80, e o caminho mais fácil é a tecnologia. Apenas mais uma forma de legitimar condutas velhas que levam inexoravelmente à elitização e a um vazio estúpido de aparências.
Talvez cultura não brilhe tanto, não seja tão explícita, mas também vale. Investir dinheiro é uma experiência livre, mas deliberada por nossas preferências. Mas gênios houve muitos, inclusive de ascendência potencialmente maior, e idolatrá-los devia ser considerado kitsch. O problema é que Steve Jobs é cool.
