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Tempo seco

novembro 4, 2010

Um suspiro. Mais um. Precoce veio a dor que acalentou a manhã de calor doente. E engraçado que soou ligeira, libertou-se fácil entre as lágrimas quentes, repletas de um desespero silencioso. E doeu, sincera, como se prenunciasse a anestesia. Os pingos salgados, aos poucos parcos, negaram-se a deixar os olhos. Caíam enquanto ninguém os via, caíam sob o disfarce das lentes, sob o rosto impassível que não se quer denunciar. E muitos se foram, e outros tantos deixaram os lábios salgados. Não cessaram enquanto estiveram atentos os olhos, antes que o sono vingasse as lágrimas e o cansaço. E as ideias, que eram tantas, eram tolas, eram tontas. Uma colher confusa no açucareiro, construindo e refazendo a casa doce e estúpida. E havia medo, daquele dentre os temores bobos das convenções, que dizem que é preciso encontrar-se e jamais perder. E nunca perder-se, e nunca morrer em vida. Quando se morre um pouco a cada dia, e noutros mais que em uns, e neste demasiado… Se fosse um poema, viria repetido, carregado dos mesmos versos infalíveis, que todos juntos seriam nada. Apenas estrofes toscas, apenas escolhas vãs. Vãs: inexoráveis. É o que se tem, é do que se duvida. Havia o medo da perda, de não ser o que é preciso, de estar aí a conflagrar vidas alheias, e nelas não depositar nada de bom. Daquelas tristezas que deviam morrer tímidas, sem sequer aparecer antes que se percebam modorrentas como o dia.

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