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Novembro do ano passado

março 21, 2018

Hoje de manhã eu preparava meu café quando encontrei um pardal morto detrás de uma vassoura e uma pá no corredor que leva à lavanderia. Tenho muito apreço por pássaros, e a verdade é que o luto pelo pequenino pardal somou-se ao meu próprio. O pardal era eu. Não sei se ocupou a casa adoecido, se morreu da falência resultante da idade avançada a um pardal. Mas é presumível que tenha vagado e se debatido antes de morrer. Tenho mesmo a impressão de que pude ouvi-lo em sua agonia, mas confundi seu som com o de uma sacola plástica exposta ao vento. A dor maior da morte de um pássaro é saber da impossibilidade de que o ser alado possa voltar a voar. Senti-me, de repente, consciente da minha própria falta de asas, mas também do fato de que as do pardal não puderam protegê-lo daquilo que é inexorável. Não puderam afastá-lo da dor. A dor, ao fim e ao cabo, talvez seja o precedente de toda a morte. Morrerão as células de uma ferida, morreremos nós mesmos diante do real e do simbólico. Morremos o tempo todo, e nem sempre há o que substitua as pequenas mortes a tempo de forjar presenças nos espaços vacantes. Embrulhei o pardal em um jornal, depositei o embrulho num pote plástico e coloquei-o no lixo orgânico. Em seu lugar de morte, nada que o possa lembrar ou que possa preencher o espaço no qual repousou seu pequeno corpo. No lugar do pardal e sua derradeira agonia, debati-me eu o dia todo. Debater-se sem asas não guarda também o mesmo vigor. Não tenho asas, nem nada que possa me proteger dos pássaros que vão morrendo, fatigados, dentro do meu próprio corpo.

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Meus óculos, procurados vivos ou mortos

setembro 21, 2017

Fui a um café hoje à tarde. Distraidamente, lá eu esqueci meus óculos. Meus óculos favoritos. Modelo pequeno, prateadinho, lentes espelhadas. Os óculos que eram da minha mãe, óculos que ela usava, barriga à mostra, à minha espera. Óculos, portanto, de pelo menos 27 anos.

A perda dos meus óculos dói demais. Justo agora. Fiz contato com o pessoal do café comunicando meu esquecimento e pedindo que, por favor, tentem localizar meu querido objeto perdido. Me parece que essa perda não é só minha, mas também da minha mãe. Perdi minha mãe ao perder meus óculos. Esqueci no café um laço com ela, um lembrete de que eu também me revisto dela, que eu a guardo, que alimento em mim coisas que são dela.

Com aqueles óculos me sentia bonita. Eles combinavam com meu rosto, mesmo que deixassem descobertas minhas substantivas sobrancelhas. Meu rosto é pequeno, estreito, fino, e os pequeninos óculos se encaixavam bem nele. Talvez me doessem um pouco detrás das orelhas após algumas horas de uso constante. Mas eram lindos meus óculos e com eles eu me sentia bem. Também não sei se protegiam meus olhos. Lentes velhas, desusadas. Eram boas porque serviam à guisa de espelho. Neles eu espiava meu próprio rosto e padecia ou me comprazia da minha própria imagem. Suspeito que também a minha mãe o fizesse. Penso que talvez eu recupere meus óculos. É possível que o pessoal do café os localize. Mesmo que talvez eu precise de lentes novas. Lentes que não possam ser da minha mãe, mas minhas.

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As sombras daquela casa

outubro 7, 2014

Dizia e desdizia-se, incluindo um ou outro elemento pra preencher os vazios da história. Da história restou-lhe o vazio, um peso que carregava e que se dispunha a carregar em prejuízo do perdão. Eu não queria que ela o perdoasse: doía-me a monstruosidade dele, e os olhos arregalados dela enquanto contava. Era coisa pra vida toda, conviver com a vergonha implícita, dessas que toda mulher sente em algum ponto por algo de que não é culpada. O baixar das calças, entre risos e olhares aguçados. Dedos de ojeriza, olhos de monstro. Como alguém é criança, se lhe tiram a infância numa e noutra noite de pesadelo? Daí eu ter pesadelo na noite passada, lembrando o que deu início à confissão e tudo aquilo que lhe impedia o final. Fiquei sonhando, entre acordar e dormir, com a atmosfera de medo e insegurança, com a meia luz permeando a cena, com o depois cheio de áridos silêncios. Uma arma que ele carregou, uma vergonha de que se despojou, sua hombridade que lhe fez militar. Talvez a mesma expressão por detrás de lentes de milico enquanto eu o imaginava agredindo inocentes discordantes. A morte dolosa numa cama de hospital, pena de crimes indizíveis. Segredos de Estado e de família.

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A burrice é confortável. E eu sou inquieta e me desgosto.

junho 22, 2013

As burrices, como pústulas, arremessam seu pus no meu rosto. Burrices eternas, travestidas de bom senso e de acusações. Burrices pegajosas, como sanguessugas roubando meu vigor. Tenham dó; eu só quis sugerir remédios. Não fiz mais que uma bula alertando para as contraindicações. Não quis mais do que dizer que o remédio certo, certa hora, já não é mais necessário. É temporário. Nas coisas das ideias, da cabeça, dos preconceitos, a cura pode ser manual e intransferível. Ela dói, mas é possível.

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Coisas da minha cabeça

maio 23, 2011

Coleciono bobagens, ninguém as lê. Sequer prestam-lhe as menores atenções. Quando então eu disser as piores delas, e ferir, magoar, romper os fios que nos ligam, direi que é tua a razão, e que tu és a razão. E que eu tenho dito tanta bobagem, tanto medo em palavras, cuspindo bobagens, roubando bobagens. Eu tenho estado tão triste, que em mim só transpiram torpezas, e só caem frutas de galhos tão altos, que ao chão se fazem podres. Eu queria sentir, e de vontades me faço ausente. Eu quero tremer, sorrir, amar, como se tivesse que costurar-me a alguma dessas coisas, para provar que sou real, e não só um pedaço de alguma dessas coisas estúpidas que fogem da minha boca.

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Um texto, um murro, e qual é a diferença?

janeiro 11, 2011

Emendas ao verso, foi o que ele sugeriu? Não sei. Já não lembro. Mas era para ser alguém que se parecesse comigo, e daí a pensar em quanto isso pode ser assustador, um pulo. Há, na mesma cidade onde nasci, uma homônima. A uma artista argentina acrescenta-se apenas o Maria, precedendo o Fernanda. Nos olhos dele, tudo se parecia. Dele, de outro. E ela dizia que éramos amigas porque éramos assim simplesmente quase iguais. Eu gosto de estar com pessoas que se pareçam comigo. Paradoxo, pois nem sempre gosto de fazer-me companhia. Eu gosto de ver o sorriso da concordância, aquele que diz “é mesmo? Achei que ninguém pensasse como eu”. Ainda estou por aprender com as divergências, pois na minha pacata filosofia da tolerância, descobri que esse tempo todo estive passando, apenas, pela diferença. Eu só a via, acenava, e nunca alonguei diálogos. E pra findar o dia, me fizeram pensar. Pensar. Pensar. Até que, como não tem sido difícil nos tempos do “E agora?”, vieram as gotas salgadas. Eu tentei a todo custo apará-las dentro dos olhos. Mas se parecem comigo. Teimosas. Eu tentei dizer, como sempre digo, que não é possível. Otimista que sempre achei que fosse, descubro a cada dia que minha característica mais fascinante (o que não diz dela que é boa. Pode ser fantástica e triste, uma soma) é fazer valer para todo o mundo o que em mim bate, e volta. Acabei rindo, fui dormir com as lágrimas secas. Mas quem sabe? Quem sabe seja isso mesmo, e elas tenham razão. Não prometo nada. Mas talvez eu mude, pra variar. E dessa vez, como nunca outrora, eu peço que não haja decepção. Não agora, por favor: estou mudando por ti.

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Esquecimento

dezembro 20, 2010

Escrevo mais quando estou triste. O lápis flui leve, que minha força se desvanece com a alegria, que meus dedos não querem falar, e estão soltos, e estão túrgidos e sofrem, e se querem ver distantes quanto mais rápido que seja do grafite que os arranha. É quando digo as coisas mais bonitas, e me dói particularmente a tristeza que não me deixa escrever, uma tristeza seca, descrente, que perambula num estágio lisérgico entre vida e morte e quer apenas se deixar dormir e morrer. A tristeza tem sido assim, e é desesperador que não faça nascer poemas, que são a dor derramada, deixando momentaneamente o corpo e marcando o papel como agulha, como uma seringa fazendo verter as letras, despejando-as e aliviando as lágrimas que incham os olhos sem cair. Essa é a tristeza mais velha, iníqua, vetusta sobrancelha erigida em dúvida, que sequer pergunta, sequer se alimenta, e tão somente vive de expandir-se. Essa que machuca minhas ideias, eu que só queria poemas de tristeza bela, da que abençoa e concerne aos bons poetas, os que conseguem fingir a própria dor.