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Utopia descarnada

novembro 9, 2018

Eu sinto muito
Pelos dias em que meu mundo não cabe no mundo
Os dias em que o sol se contorce e não consigo ver
Dias de desolação
Arregalados os olhos em estado de espasmo
Uma dor pungente que ficou
Inutilmente
Manhãs em que nada posso crer
Tardes em que maltrato a pele,
Crendo
Noites de brilho cego:
Ocupada mordendo a vida
Com a língua dormente
A boca e os dedos loucos
Dizendo nada
Nada
Sinto tanto que meu mundo seja gordo de desejos
Estufado, excessivo, engasgado
Sem caber na boca
Sem caber aqui

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Gosto acre

outubro 9, 2018

Estávamos num café na Jerônimo de Ornelas, um pouco adiante do Posto Modelo. Faz um mês, eu acho. Lembro que eu estava com fome e pedi um salgado. Havia mais umas cinco pessoas dentro daquele café, que é bem pequeno.

Pouco antes de receber meu salgado, um sujeito gordo, barbado, de óculos e aquelas caras de ressaca, sabem?, começou a falar ao telefone. Progressivamente, ele aumentava o volume de sua voz. E dizia: “é bom que tu estude. Quero ver tu dar tua carne e teu sangue para ganhar isso”. Quando mencionou medalhas, pensei que era um daqueles treinadores espartanos, arquetípico. A seguir percebi que falava com a filha. “Tu tem chance de ganhar medalha. Não pode ser perdedora. Quero teu sangue, quero que tu te mate pra ganhar isso”. Ele então para, por um momento, para ouvir. Ao que se segue: “gostei da atitude com teu irmão. Mas é como diz o B* [o candidato fascista], como foi que ele disse, sobre os quilombolas? Gordos inúteis. Teu irmão é um gordo inútil. Engrossar com ele não é nada”.

Um casal que estava no café saiu, desconfortável. Outras duas mulheres trocavam olhares que misturavam preocupação e incredulidade. Eu engoli meu salgado sem desfrutar dele. Os minutos em que o sujeito monstro desumanizou a filha e ofendeu o filho demoraram longamente a passar até que ele desligasse o telefone e saísse.

O episódio do café me tocou muito, precisamente porque meu próprio pai – é claro, sem comparação com o sujeito do café – é desses que, bom, eu chegava em casa com um nove na prova e ele dizia “não fez mais que a obrigação”. E eu aprendi que noves não são bons. Não como um reforço para melhorar. Eu aprendi a ser insuficiente. Mas meu pai não faz por querer. Ele carrega muito da disciplina militar que o ensinou a ser violentado e achar que isso era educação para a disciplina. Ele próprio carrega as insuficiências de ensinamentos que tornaram muito difícil para ele dar um abraço, por exemplo. Naquela tarde no café eu pude, sem nem me esforçar, entender a gravidade do que aquele pai dizia pra sua filha. Se eu, ouvindo as “brincadeiras” do meu pai sobre meus noves, sei o quanto isso me afetou e afeta, fico pensando sobre como é comprometida a subjetividade de uma guria que tem um pai como esse, sobre como ela vai se ver destruída. E eventualmente vai querer se destruir, caso a medalha não chegue.

Eu entendo que essa disciplina da insuficiência obrigue muitos a proteger os espaços das suas conquistas. Noutras palavras, dá pra compreender porque um sujeito que estudou mil anos para passar num vestibular concorrido não queira que isso se torne possível para muitos mais sujeitos, por exemplo, e daí se veja totalmente absorvido pelo ódio a um projeto político que, ainda que com diversas limitações, realmente favoreceu o acesso de muita gente à educação pública, inclusive de nível superior, casa própria, TV de led. Seria como se essa ampliação relativizasse o êxito pessoal daquele que “fez por merecer”. Mas desumanizar o outro, passar ao largo das necessidades que por vezes nem compreendemos, que de nós estão distantes por nossa classe, cor da pele, gênero e orientação sexual garante apenas que nossos sucessos sejam relíquias, baús fechados, sem possibilidade de que nos alegremos pela conquista do outro. Eu poderia dizer mil coisas, políticas e econômicas, para justificar o porquê o voto no fascismo é um erro fenomenal. Mas isso diria mais de mim mesma do que daquilo que quero comunicar agora. Por ora, então, afirmo apenas que o voto no fascismo é um voto pela desumanização, pelo desvalor de toda a conquista que não seja “a minha”, no sentido mais individualista e neurótico do termo.

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Os tiros quando tocam a carne são a explosão sem fim

outubro 1, 2018

Meu pai tem uma arma.
A substância dela, o que a compõe
o metal frio e escuro
cabo rígido
gatilho negro
eu vejo entre cortinas de sonho
eu a vejo diante dos meus olhos em transe
eu nunca a vi
a toda briga,
eu esperava que a arma soasse
e perfurasse alguma testa
cresci com sua sombra
escurecendo a vista
num desmaio
temendo o desejo de perfurar minha própria testa
escapar da cegueira dos dias enevoados
ela só é possível por sua materialidade
todo discurso que eu constituir
parte da concretude do revólver escondido em algum canto de casa
da sua existência real
de movimentos furtivos
minha mãe guardando a arma
distante da munição
“precaução”
o ato de escondê-la
e não ela mesma
afastá-la da vista
usá-la seria sempre um tiro
na minha própria cabeça

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Entre o ônibus e a rua

agosto 30, 2018

O ônibus vai aos solavancos, dificultando minha tentativa de manter as lágrimas presas entre o rosto e os aros dos óculos. Escapam, enquanto eu vislumbro com desatino a obrigação perdida de animar-me em um dia de sol. É caso que mesmo eu estou farta do frio, e suponho que de mim estejam fartas as lágrimas.

Não vou cobrar solidariedade de quem tiver assistido à denúncia do meu choro quieto. Quando o ônibus para, desço. Fingindo que as coisas vão bem, aguardo que o sinal vermelho infindável me autorize a seguir. O sinal virou metáfora, a fala impostada da personagem da série a que eu assistia ontem virou refrão, ainda que eu nem lembre mais das palavras. Me contenho no exercício incessante de encontrar respostas a perguntas que eu mesma faço. Não sei se por evitar o tempo que inevitavelmente vai sobrar ou se para desenhar um caminho de fórmulas e estratégias a fim de burlar o sinal.

Me divido sempre entre o certo e o errado. Quando erro, me tocava acertar: é sobre atravessar a rua cheia sem a anuência dos carros. E quando acerto, me parece erro. É sobre ser invariavelmente incompleta, falida. Queria ter deixado as lágrimas no chão do ônibus, livres de mim, a seguir o caminho que eu interrompi. Errei de novo e elas, despercebidas, se alojaram debaixo da roupa.

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do branco, que é a soma de todas as cores

julho 2, 2018

Eu me acostumei a paredes nuas e a nunca me sentir em casa. Uma sensação de incompletude e insuficiência sempre me tomou o desprendimento de chegar e poder dar-me a chance de estar, somente. Talvez porque a tinta branca sempre pode tomar a forma de quem chega. Parece que aos meus próprios lugares eu não quero pertencer, e então deixo aos outros a tarefa de ocupá-los e fazer deles o que quiserem. Nos meus lugares sempre chove pra dentro. E eu preciso insistentemente olhar para as manchas, ver a imperfeição que me resta e a impotência que me cabe. Meus lugares são, assim, marcantes por seu vazio, tomados de dor, permanentes, à espera de que alguém os salve, porque eu mesma preciso não poder.

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Novembro do ano passado

março 21, 2018

Hoje de manhã eu preparava meu café quando encontrei um pardal morto detrás de uma vassoura e uma pá no corredor que leva à lavanderia. Tenho muito apreço por pássaros, e a verdade é que o luto pelo pequenino pardal somou-se ao meu próprio. O pardal era eu. Não sei se ocupou a casa adoecido, se morreu da falência resultante da idade avançada a um pardal. Mas é presumível que tenha vagado e se debatido antes de morrer. Tenho mesmo a impressão de que pude ouvi-lo em sua agonia, mas confundi seu som com o de uma sacola plástica exposta ao vento. A dor maior da morte de um pássaro é saber da impossibilidade de que o ser alado possa voltar a voar. Senti-me, de repente, consciente da minha própria falta de asas, mas também do fato de que as do pardal não puderam protegê-lo daquilo que é inexorável. Não puderam afastá-lo da dor. A dor, ao fim e ao cabo, talvez seja o precedente de toda a morte. Morrerão as células de uma ferida, morreremos nós mesmos diante do real e do simbólico. Morremos o tempo todo, e nem sempre há o que substitua as pequenas mortes a tempo de forjar presenças nos espaços vacantes. Embrulhei o pardal em um jornal, depositei o embrulho num pote plástico e coloquei-o no lixo orgânico. Em seu lugar de morte, nada que o possa lembrar ou que possa preencher o espaço no qual repousou seu pequeno corpo. No lugar do pardal e sua derradeira agonia, debati-me eu o dia todo. Debater-se sem asas não guarda também o mesmo vigor. Não tenho asas, nem nada que possa me proteger dos pássaros que vão morrendo, fatigados, dentro do meu próprio corpo.

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Meus óculos, procurados vivos ou mortos

setembro 21, 2017

Fui a um café hoje à tarde. Distraidamente, lá eu esqueci meus óculos. Meus óculos favoritos. Modelo pequeno, prateadinho, lentes espelhadas. Os óculos que eram da minha mãe, óculos que ela usava, barriga à mostra, à minha espera. Óculos, portanto, de pelo menos 27 anos.

A perda dos meus óculos dói demais. Justo agora. Fiz contato com o pessoal do café comunicando meu esquecimento e pedindo que, por favor, tentem localizar meu querido objeto perdido. Me parece que essa perda não é só minha, mas também da minha mãe. Perdi minha mãe ao perder meus óculos. Esqueci no café um laço com ela, um lembrete de que eu também me revisto dela, que eu a guardo, que alimento em mim coisas que são dela.

Com aqueles óculos me sentia bonita. Eles combinavam com meu rosto, mesmo que deixassem descobertas minhas substantivas sobrancelhas. Meu rosto é pequeno, estreito, fino, e os pequeninos óculos se encaixavam bem nele. Talvez me doessem um pouco detrás das orelhas após algumas horas de uso constante. Mas eram lindos meus óculos e com eles eu me sentia bem. Também não sei se protegiam meus olhos. Lentes velhas, desusadas. Eram boas porque serviam à guisa de espelho. Neles eu espiava meu próprio rosto e padecia ou me comprazia da minha própria imagem. Suspeito que também a minha mãe o fizesse. Penso que talvez eu recupere meus óculos. É possível que o pessoal do café os localize. Mesmo que talvez eu precise de lentes novas. Lentes que não possam ser da minha mãe, mas minhas.