Archive for julho \29\UTC 2009

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Entrelinhas

julho 29, 2009

No trajeto entre casa e Câmara, reflito. São poucos minutos, melhores sob o Sol, mas que provocam incessantes pensamentos. Ora, nem sei se conseguiria parar de pensar, mas estes são, de uma forma peculiar, sugestões infinitas, feixes de idéias, fragmentos teóricos, relações e mais relações. Neurônios interagindo, trocando dados, conexões que me divertem. E viva a sinapse! Pois muito bem, hoje não foi diferente. E a idéia é falar de idéias (assim, com acento mesmo, que ainda não me acostumei a ter idêias. Se é pra mudar um idioma, que se mude o todo e não mísera e infame parte). Parece-me que vivemos uma época de teses facilmente disfarçadas em mau português, vícios de linguagem e gírias, ou em discurso prolixo, vernáculo rebuscado e lirismo exacerbado. Não me atenho a acusar aqui a falta de leitura e a importância de se fazer entender utilizando vocabulário adequado (isso merece outra intervenção no blog). No entanto, a percepção de todas estas particularidade acaba desviando-nos do princípio da linguagem: transmissão de informação. E, ao passo que muitos se utilizam de lindas palavras para dizer absolutamente nada, há outros que, ainda que não pareçam preocupados com o que dizem ou escrevem, posicionam-se, e aí encontra-se a real riqueza da comunicação. É preciso valorizar a existência de idéias em uma sociedade que incentiva pessoas cada vez mais vazias. Quando deixarmos de prestar atenção aos “periféricos” para concentrarmo-nos nas opiniões (ou na total ausência delas), veremos que muitas vezes a relevância está paradoxalmente naqueles que não parecem ter como dizer muito. E, o que é o maior problema, os discursos engendrados, os mais admirados, podem estar escondendo futilidades gigantescas e ainda maiores imbecis.

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Você tem fome de quê?

julho 25, 2009

Noites febris, os dedos frios e a quietude desgostosa. Meu pequeno espaço, este aqui, às moscas. Estive por escrever duas, três, quatro vezes. Desisti pela cabeça, que doía, pelas mãos, insistentes cubos de gelo, pelo calor da cama e pelo cansaço iníquo e virulento. Agora, os dedos parecem inclusive estar pouco firmes, enferrujados, desacostumados desse ato que exercito tão maquinalmente e que a gripe obrigou-me a adiar. Nestes dias, o que fiz? É até cômico como habituo-me automaticamente a, quando doente, exercitar um costume que julgo doentio, podre e sedentário: televisão. Nestes últimos dias, assisti a mais televisão do que o fiz todo o ano! E eu, que inquieto-me tanto diante desse monstrengo onde não se pensa e não se cria, fui obrigada a aceitar, posto que estou proibida de deter-me em frente às palavrinhas mágicas contidas nas doces páginas dos livros. Talvez, seja sensato: os livros são tão maravilhosos que, acaso eu leia uma tempestade no meio do mar, as gotas gélidas podem açoitar-me e aumentar a febre. Mas, voltemos: no primeiro semestre deste ano, apresentei um trabalho sobre a importância de ler. Em dado momento, lógico, critiquei o uso exacerbado da televisão pelas crianças, principalmente. Argumentei que as imagens, no tubo, não somos nós que criamos: estão prontas, cruas, enlatadas, classificáveis e embaladas em papel colorido e publicitário, contribuindo, portanto, para o comodismo e para a falta de imaginação. Sim, escolhi essas características pois os programas são, para mim, como os produtos dispostos nas prateleiras, nem sempre fiéis às suas premissas, mas sempre chamativos. E é por isso que as crianças não entendem mais como um pedaço de madeira pode ser estrada, um cabo de vassoura pode ser namorado ou grama pode ser fermento para bolos de terra-chocolate, a não ser que assim se faça na Malhação ou na novela das oito (aqui, não defendo que a minha geração saiba disso, da mesma forma). Outrora li, e agora me some a fonte, que hoje as crianças não se concentram por mais de dez minutos, já que é este o tempo de um bloco até o comercial. Que pena. Eu ainda creio num mundo feito de e pelos livros, apesar do niilismo quase conseqüente que permeia nosso cotidiano. No próximo bloco, falarei sobre uma coisa que chamou-me a atenção nestes dias de idiotice televisiva. Volto logo após os comerciais.

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Pensei em escrever sobre o vento numa destas noites gripadas. As palavras fugiram-me e pretendo encontrá-las assim que puder. Afinal, a resposta sopra no vento./ Não, não estou com H1N1. A gripe nocauteou-me, mas ainda não me transformei em um porquinho rosado e simpático./ No mês que vem, prometo, farei pelo menos a crítica de UM filme. Até escolhi qual e já estou afiando bem as unhas que nem tenho./

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Segundo bloco, para não envenenar essa notícia com meu desgosto pela televisão. Acredito que tenha sido uma das manchetes do Fantástico, mas não sei ao certo. Um caso raríssimo de uma mulher que diz ver a música e sentir seu cheiro. Imediatamente, pus-me a refletir sobre a imagem e o aroma dos diferentes gêneros. Reservo-me o direito de não dizer a que conclusões cheguei, para não influenciar quaisquer opiniões. Agora, se boa música embriaga, satisfaz, arrebata e alimenta, por que não ter corpo e cheiro, ou mesmo sabor? Isso posto, questiono: quais são nossos motivos para consumir música? Será que pende para níveis arriscados nosso colesterol melódico? Engraçado, acho que sou uma glutona: glutona musical.

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Evite lê-lo

julho 14, 2009

Abri o baú,  procurando pelas palavras certas. Deitei os olhos em tudo o que estava a meu redor, tentando extrair a poesia de alguma das coisas; ouvi as vozes de tantas conversas, tantas letras repetidas, melodias comprimidas na garganta. Quis acompanhar as músicas, que me levassem para tão longe… Mas hoje não. Não há poesia nos anéis dos cabelos, nas borboletas multicores ou nas conversas antigas. Esta noite, sob a luz amarela e alerta quanto aos deveres que eu procrastino, eu desejei não sentir que é preciso, que há que se enfrentar, que a vida é uma daquelas longas partidas de xadrez entre dois  senhores de alva sabedoria, com seus olhos perscrutando cada movimento e o relógio deliberado para exigir. Hoje, eu não sou um exemplo de controle: meu riso é nervoso, e o relógio bate também na minha cabeça, esperando uma resposta que, se de fato viesse agora, não seria nada poética.

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Impressões

julho 11, 2009

Sobre o show, resumidamente: inúmeros momentos para ouvir de olhos fechados o que sintetizou as emoções de uma época. Cores oníricas. Instrumentos fiéis aos originais. E o que foi o ápice, na minha opinião: George Harrison, enquanto sua guitarra gentilmente chora.

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“Que vida interessante a do primo Basílio! – pensava. – O que ele tinha visto! Se ela pudesse também fazer as suas malas , partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os países que conhecia dos romances – a Escócia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palácios trágicos (…)”

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Twist and shout

julho 10, 2009

Uma sexta-feira para lembrar de coisas que nem vivi. E como é bom contar com o privilégio de desfrutar de um tempo em que não se precisava ter uma novidade a cada hora, uma nova ressurreição da música por instante. Hoje, estamos sempre apressados e é imprescindível que a cultura e os laços apliquem-se a esse padrão. No entanto, porque não deixar que as coisas apropriem-se de nós de tal forma que o tempo possa mesmo ser relativizado? (e ele pode. Não sou eu quem estou dizendo). Para hoje à noite, eu espero estar plena nos anos 60 e que seja bacana, chuchu beleza. Uma brasa, mora? Quem sabe daqui a 30 anos sejamos nós mesmos saudosistas da época, da nossa época? Agora, são dias desiguais. Mas como canta Elis, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

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Trechos

julho 8, 2009

Uma pequena história melancólica, para um reflexivo dia cinza. E peço desculpas aos que não apreciam ler a tristeza, mas quem dirá que ela não é poética?

Era um dia infeliz, apesar da chuva. A boca disse mais que os olhos, a dor foi leviana e o desencontro, maior que a pŕopria vontade. E tão sensato era o pesar, mas ela não pudera contê-lo, maltratando a si mesma e ferindo a quem estava perto, com os olhos embaçados de uma cegueira estúpida e infantil. Era dor e era tal que o seu peito padecia. Havia algo naquele pranto, algo que ela não compreendia.

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Ópera dos olhos

julho 7, 2009

Soube hoje que já está disponível um dvd que eu há muito anseio por ver. Rever, na verdade: Capitu, aquele mágico espetáculo com que a própria televisão brasileira foi presenteada. E escrevo para sugerir, àqueles que ainda não assistiram, que prestigiem este belíssimo trabalho de Luiz Fernando Carvalho, mesmo diretor de “Os Maias”. Capitu, é, desde seu nascimento, uma das maiores e mais peculiares personagens da já rica literatura brasileira. Nada mais justo que tenha sido desenhada e envolta em feitiços voluptuosos pelo grandioso Bruxo do Cosme Velho. E o que foi a minissérie, senão uma ode ao talento e ao vigor machadianos?

A cor, a penumbra, os ditos literais, os cenários, as vestes, tudo contribuiu para a riqueza e o lirismo da experiência. E a trilha sonora? Um frêmito de sentidos que absorve com homogeneidade não só clássicos da música erudita como também petardos ensandecidos de um rock and roll quase sinfônico. E, em particular, a música tema de Bento e Capitu, Elephant Gun, que é de uma doçura singela e contagiante, capaz de elevar e fazer dançar a alma, em consonância com as atuações luminosas do elenco e a linguagem de Machado, pai da polissemia.

Bento, um quase louco na interpretação de Michel Melamed, nos conduz em seus próprios devaneios e, em instantes, já nem mais se sabe se o Casmurro descreve a realidade ou se nos leva para uma viagem maníaca de pesadelo, ciúme e ilusão. Exatamente como, séculos atrás, deslizou a pena dúbia do autor, por entre os superlativos de José Dias e os capciosos olhos de Capitolina.

Machado como sempre, eternamente belo.

“Donde concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua na noite velha o sonho truncado da noite moça.”