Archive for agosto \28\UTC 2009

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Pequenas Impressões

agosto 28, 2009

Hoje, uma imensa, intensa vontade de dançar. Acalmar o corpo inquieto através de movimento. Um dia descobri que não é preciso coordenar mãos, pés, braços e pernas em uma coreografia estética. Às vezes é preciso apenas sentir, mocinha das razões. Então, deparei-me com algo que faltava: a expressão dos sentidos – que dança é cheiro, gosto, som (!), toque… – sem limitação. É encontrar-se, até mesmo longe de onde se está (novamente, encontrar-se. Ora, são momentos fabulosos) e estar livre do turbilhão de pensamentos, milhões de verbos a perguntar por nós. Eu hoje trago a alma bailante, e terei mesmo que dançar em casa, ou nas ruas debaixo do Sol. Mas não importa, é possível e isso basta.

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Do trabalho, a propósito: é maravilhoso mudar. Mudar os móveis, deixar que caia o armário para excluir o que não mais serve, ver o ambiente sóbrio e harmonioso, mudar a gente enquanto muda o espaço. Ora, Quintana, tu mudaste até a alma de lugar!

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Se as emendas não mais traduzirem meus sonetos, vou apelidar o blog de Pequenas Impressões.

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Sombra e luz

agosto 26, 2009

Era a náusea. Não a existencial, mas aquela simples, presente, floreio embasbacante no estômago. Um arrepio quente, frio, gelado e fervente, adentrando a cabeça, derreando pensamentos, engolindo o ar e engasgando-se. Intimamente, os braços debatiam-se, num furor intenso e disfarçado, imóveis aos olhos externos. Rajadas de vento anunciavam uma tempestade gélida, tremor inconstante, guitarra distorcida em sons sombriamente graves. O reflexo no espelho estava lânguido, pálido e insano; na cabeceira o corvo de Poe, em folhas que já se debatiam pelo vento da janela aberta. Fechou-a, e fechou-se em si mesma, magoada de si e da chuva que a esperava intranqüila.

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Em um daqueles momentos rápidos de proposições à velocidade da luz, eu vinha calculando quantos foram os pretensos inícios de livros que escrevi. Àquele que escreve, duvido que em algum momento não tenha querido produzir uma obra para sentir, os dedos afagando páginas, o cheiro – perfume mágico – do papel (e eu que ainda gosto tanto do odor de folha antiga, amarelada…). Eu comecei várias: aos nove, a história de um cachorrinho faceiro; aos catorze, um pedido de socorro, arqueologia e espionagem; aos quinze, a queda de um avião em uma floresta embrenhada; aos dezessete, um encontro trágico, amor inconsolável. São todos um pedaço de mim, e como me agradam seus traços, seus trejeitos, alguns que eu talvez já ache desajeitados, mas sempre em algum lugar do passado, em um fragmento (todo?) doce, enérgico ou melancólico da própria existência.

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Pelas ruas de algum lugar

agosto 25, 2009

The sacred and profane
The pleasure and the pain
Somewhere your fingerprints remain concrete
And it’s your face I’m looking for
On every street

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Não, não há nada subliminar. Não há tradução ou reflexo. Esta foi apenas a música do dia, bela e harmoniosa. Algo como “o sagrado e o profano/o prazer e a dor/em algum lugar a impressão dos seus dedos permanece concreta/e é o seu rosto que eu procuro/em todas as ruas”. Dire Straits, On Every Street. E perdão por não ser  algo meu, mas é, quando me aproprio da melodia e visito um lugar que, de tão fantástico, não sei descrever.

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Sol, música, poema da existência

agosto 24, 2009

De repente, contive-me. Um mísero instante bastou para que eu percebesse, os olhos surpresos, como o dia estava lindo. Recostada na porta, o Sol cálido – regalo cheio de fulgor – presenteando corpo e mente. A música, talvez um pouco alta demais aos ouvidos desavisados, mas suficiente para preencher todo o espaço, espaço da casa, da alma, dos olhos. E é tão bom aquietar-me, deitar à luz o corpo leve, deixar que soem os timbres no peito, e estarrecida arrebatar-me da melodia e da certeza que ao abrir das pálpebras lá estará o mundo, em todo o esplendor. O livro perdoou-me pela efêmera negligência e esteve comigo no colo enquanto tomava-me uma consciência enorme da delícia de se estar aí ou aqui, sem saber. E de fato não sei o que move estes frêmitos apaixonados e, contradição!, de uma calma idílica e surpreendente. Basta o fato de que são únicos, plenos e certeiros da evolução do sorriso no rosto, que quase não cabe em si, quase não cabe em mim. É do tamanho do Sol e me diz: que a vida há e me faz feliz.

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À noite, eu vi uma criança chorar. Em minutos, estava refeita, e sorria. E como seria maravilhoso se cada uma das lágrimas pudesse, assim, voltar a brilhar numa expressiva alegria. Existem as crianças e os que aprendem com elas.

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Post Scriptum

agosto 20, 2009

Lendo meus próprios textos, exerço a mais importante crítica leitora. E assim descobri que, aos olhos assíduos (e mais ainda aos novos), talvez o último tenha motivado certa surpresa. Por isso, justifico: ultimamente, tenho estado mais poética e ficcional; no entanto, lembrei-me de quando comecei a escrever por tudo e por nada, trilhando um caminho apaixonado, como é o da letra ácida e provocante. Aquele tipo de texto onde confabulam ironia, crítica e até mesmo uma certa crueldade inofensiva. E, publicamente, acho que então devo um agradecimento especial a um certo programa dito reality show transmitido em todos os verões. Se não fosse aquele espetáculo de horror e pequenez, acho que não teria começado. Me enganei, portanto, mea culpa: a televisão não é de todo ruim. E para pedir perdão, cito o comediante Groucho Marx: “Considero a televisão muito educativa. Cada vez que alguém, na sala, liga o aparelho, vou para o quarto ler um livro”.

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Restou a pergunta: melhor lírica ou melhor crítica?

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Amada Deutschland,

agosto 19, 2009

eu moro em uma bela cidade: prédios altos e elegantes, várias ruas arborizadas e até mesmo boas praças  (caso fosse dada a elas a devida atenção). Temos teatro, centro universitário, shopping, cinema, monumentos, galeria de arte e vários visitantes aos finais de semana. E temos hamburguenses, dignos e orgulhosos de sua condição: germânica, burguesa e hipócrita. Sem ensejar atingir a todos, temo que Novo Hamburgo seja um município de pretensioso nariz arrebitado. Um lugar onde as atrações turísticas do sábado devem variar entre o shopping e os carros que deslizam garbosamente pelas avenidas, mas não para os moradores high society: estes vão para a serra, para a praia ou para Porto, onde podem, decerto, fugir de si mesmos e de sua empáfia, porque até para eles deve ser estafante, coitados.

É uma cidade de aparências – não importa quão parcas sejam suas condições financeiras, é impreterível que tenha um galante e potente modelo do ano e frequente a página social do jornal – “estas são as melhores pessoas que temos”, pode-se dizer. Aqui, abre-se a boca mais do que o necessário para proferir um sobrenome cheio de Rs, Ws e Hs, e se for Hitler (não, nunca vi este por aqui), tanto melhor, eu acho. Você sorri ao dizer “sou descendente de alemães”, e não há absolutamente nada de errado com isso, mas são poucos os que realmente tem justificativas para tal. Talvez seja porque estes são sobrenomes mais europeus do que os portugueses Souza, Machado e Carvalho (!). Isso sem falar nos da Silva e dos Santos, que então designam descendentes de escravos – amigos, acordem!, os colonos vieram para cá só para substituí-los. Ninguém é melhor ou pior nesta história.

Em Novo Hamburgo, reclama-se por muito, muito pouco, e normalmente os culpados são os mesmos. É uma cidade conservadora e racista, ainda que, assim como tudo o que se faz por aqui, vá à missa aos domingos. Ah, e também colabora com causas sociais, mas só se estas envolverem publicidade, larga divulgação e vestidos caros e bonitos. É um recanto onde a arte foi morar: a arte da malícia e da fofoca, pois tudo é motivo para comentariozinhos. Uma pena; se as pessoas se ocupassem mais trabalhando, ganhariam mais dinheiro e não enfrentariam dificuldades para pagar as prestações do carro de 150 mil (um chute baixo) que todos verão quando você chegar ao restaurante para comer – opa, não!, para aparecer na social.

Outra coisa: as pessoas aqui gostam de se relacionar com gente da mesma estirpe – dependendo do seu bairro, do colégio onde estudou e do seu tênis, lamento: as coisas trilham caminhos bem diferentes. Mas, claro, há pessoas interessantes neste município donde vos falo e, coincidentemente (ou não), a mentalidade destas dificilmente é hamburguense.

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Sono

agosto 17, 2009

A segunda começava com uma torrada fria e café forte. A cada mordida, regurgitava pensamentos. Tinha agora que enterrar o passado, antes que as vísceras começassem a se deteriorar. O dia era mesmo fúnebre, e o vento leve arrepiava o pescoço. Nunca acreditara em conversas com os mortos. Nunca. Mas agora não havia dúvidas: era o pai, a mesma camisa cinza, o mesmo esgar involuntário, a testa franzida, a pele alva e os olhos negros. E falou com ele, disse-lhe que não suportava, que era só, que morreria junto. Ele insistiu: a vida era boa e não podia desistir por seus problemas, por sua solidão. Aproximou-se para um abraço, mas não, já estava resolvido: a morte é a única certeza, a morte cura tudo. Decidiu-se; o pai sumiu. No porta-retrato, um pedaço feliz do passado morto: a camisa cinza, a pele alva, os olhos negros. Não dormia há três dias.

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Engraçado. Como podem, denominados da mesma forma, significarem coisas de tão diferentes jeitos? Estou feliz. O que importa é o sentido que encontramos.