Archive for setembro \28\UTC 2009

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Perdão; outra vez

setembro 28, 2009

Repetir-se é incomodar ou corroborar. Fracasso no intento ou sucesso na sugestão. E uma possibilidade de crítica (sempre as possibilidades… Sartre, o que te alivia a náusea?). Pois bem, dou-me o direito ao tapa. Arrisco-me e vou repetir. As questões estão na minha cabeça com uma intensidade inominável e não sei se é engraçado e me faz rir ou se corro, corro até onde não mais ventam as dúvidas (como se houvesse tal lugar!). Enfim, basta de tergiversação. Como podem dizer as pessoas que no que escrevemos falta personalidade, e faltamos nós? Ah, logo nós, egoístas congênitos, e não nos poríamos em cada vírgula, em cada ponto final ou risco firme nos esboços relidos? Mas é bem capaz! Cada letra que desenhamos, cada palavra escolhida é nossa, empréstimo doce e pungente recheando as linhas. Eu estou em cada gota azul que escorre da caneta e mancha as páginas brancas das velhas agendas onde teimo em despejar verborragias simplórias ou versos sutis (aliás, eis aí uma prova de que nós podemos manipular o tempo a nosso favor. Os dias que lá estão voltam como referência dos dias em que escrevi e são emoção nova e surpresa). Talvez não seja eu: quiçá uma mocinha de quem tive pena, um melancólico senhor que lia na praça, um homem frívolo, um sorriso sincero no teu rosto, um otimista, um bufão… Ou uma parte de mim que escorrega, que transpira e que encontra eco em outras histórias, se mistura, se entrelaça, se confunde e se disfarça e daqui a pouco… onde estou eu agora nessa maçaroca de lãs enleadas em fiapos próprios e alheios? São palavras: magia, encanto e tortura. São as nossas perguntas e as tentativas incansáveis de encontrar respostas que não existem e então fazer mais perguntas sem sentido, justamente estas responsáveis por encontrar o sentido (!). Ah! Descobri que me apaixono. Não há ninguém que melhor me conheça do que elas.

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Simplesmente, escreva!

setembro 25, 2009

Desde ontem, tenho ouvido pessoas dizendo que gostariam de escrever, expor seus escritos, expressar suas vidas. E teimo com esse gostariam. E queria poder ser persuasiva o bastante, oradora eficaz, a ponto de convencê-las. Escrita é terapia, é conhecer-se, é desvendar de nós mesmos intenções que a princípio nem pretendíamos demonstrar. E é, certas vezes, sensação repetida: escrevo, leio, surpreendo-me e invejo minhas palavras, que sabem mais de mim que minha consciência. Ou se cria, traduzem-se histórias que não conhecemos e um dia se percebe que se inventam possibilidades, que se exercita a tolerância. A escrita é um meio de entender: compreender alegrias ou dosar pílulas sem efeito colateral.

Agora, o mais importante: o lápis está ali, pronto, espera paciente. E qualquer um pode pegar da pena e desenhar uma, duas, três letras. Daqui a pouco, sílabas, e ora!, então palavras. É tão maravilhoso que eu desejo a todos a mesma coisa. Ironicamente, este não é um bom texto. Mas quem sabe aí resida sua maior sabedoria, sapiência intrínseca das palavras: não é preciso escrever bem, dominar palavras e expressões, definir com as melhores o que vêem os olhos. Basta sentir o que se escreve. Ser real, ser verdade. Ou fingir que se conhece outra verdade, e fazer dela a nossa enquanto deslizar o lápis. E sentir todos sabem. Fingir? Ah, que se finja, a causa vale. Quem conta histórias enriquece as suas próprias.

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Afinal, “todas as cartas de amor são ridículas”…

setembro 24, 2009

“Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!”

Um pouquinho de Pessoa, para esquecer-me das ironias relidas de um tal Brás Cubas (que não me canso de fazê-lo!), mas que é boa a poesia para exercício da nossa insensatez.

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Poemas sem métrica

setembro 20, 2009

Dessa vez, havia outro ar. Oxigênio petulante nas desvios da tua memória. Não achei que fosse escrever, não achei que soubesse. E eis que aqui estou, eu e meus meios, minhas frustrações cuidadosamente escolhidas. Zelo ao desvelar, atentei-me para ti e fui mais pele e sangue que Platão. Um mergulho mais e mais profundo, do qual só me dei conta quando os pulmões sôfregos protestaram. Busquei tanto ar quanto pude, doeram-me garganta e o peito. Entrementes, sofreu o corpo todo, a partir dos olhos – retinas reverberando cansaço e torpeza, tristes de ver além do que queriam.

Desespero seco e silencioso, e eu pisei pés que não conhecia, e gritaram pernas e braços coisas que eu não dizia. E de repente essas vozes confabulando à volta, acentuando outrora e agora a solidão adquirida.  Pois que é inegável que me senti só, única entre os demais sorrisos e passos. Só. Isso basta e a dor não cessa. Quis esvair o corpo todo em água salgada, oceano e lágrima, e beber no gargalo do veneno das próprias parvoíces. E toda a razão a quem comparou minha alma a de um poeta.

E assim ela escreveu, ela que lia e era das palavras esse o único proveito. Escreveu. Quis dizer o que a boca calou, desejou lembrar e esquecer do sentimentalismo insolente que cabia em si, que a preenchia e sobejava, melífluo licor dos algozes.

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Só hoje

setembro 15, 2009

“Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. ” (Bentinho, o Casmurro)

Ah, o melhor dos bruxos; do Cosme Velho. Tens cá uma fã, outra entre milhares.

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Hoje produzi uma poesia feliz… E quanto tempo fazia disso! É que há pele para saborear o vento, olhos sorridentes, coração pulsando e cabeça para sentir. Além disso, foi maravilhoso acordar e ver o dia ensolarado. E tu, do que precisas?

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Tua pele, teu pergaminho

setembro 13, 2009

Olhar agora para trás, para diante e para os lados, a procura de um caco bonito junto aos destroços efêmeros. Eram fragmentos inofensivos de decepções, tristezas, lacunas, vazios. Mais que parte, eram anexos dela, os quais poderia despir ou não. Os gregos, no entanto, reciclavam seus pergaminhos, soprepunham histórias. E aqueles pedaços não seriam despejados ao longo do caminho. Em meio a uma tristeza difusa, inerte, honesta e elegante, era quase derriça das próprias marcas infelizes. Tocou-as, delineou cada um de seus traços, sentiu nas pontas dos dedos as garatujas furiosas. E esboçou um sorriso cheio de paz. Um dia, alguém riria com ela dos desencontros, das desventuras… e isso não a cansaria mais. Alargou o riso, percebeu que o passo errante é dádiva, é mácula necessária e apenas êxito visto de outra perspectiva. Abençoou-se, pedindo que ninguém a defendesse: viriam muitas mais estroinices e outros grandes enigmas da novidade humana. Naquele dia, não houve milagre, não conheceu um feliz acaso, nenhuma estrela cadente. Era só a vida, distante demais dessas metáforas insones.

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Impossível não querer desvendar escritos. Onde estão nos textos as pessoas que os escrevem?

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Eles

setembro 9, 2009

Dizer? Ele só podia mesmo calar. Regurgitava palavras na face que enrubescia. Voltavam, revolviam o estômago, lembravam tudo e eram tantas se dissipando no ar escuro e cheio de expirações. Havia gente lá, tribo de desencontrados, felizes desconhecidos, intensas angústias através do movimento. Seus rostos diziam muito ou muito pouco, quer você olhasse ou não, dependendo da forma como encarava e como suas pupilas procuravam a luz no pulsante espaço. Girava a cabeça, procurava seus cabelos, seu riso e seus movimentos; não dizia nada. Sorria leve e constrangido, quase desinteressado. Desinteresse? Os pés nem pensavam mais nisso: eram repuxo de uma correnteza forte de esquecimento, olvido doce e bucólico que aos poucos afogava o corpo todo. E levava para dentro com uma força e firmeza incansáveis. Incessante, harmonioso, lindo, abraço… um envolver de braços que ela conhecia. Só parou quando os pés já pensavam, ou clamavam pela delicadeza das idéias. Parou e o sorriso parecia bem maior, tristemente desinteressado. Não ia mais desistir. Era agora, e por momentos. Até quando não sabia, mas era quando o que queria.