Archive for outubro \22\UTC 2009

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Ponto

outubro 22, 2009

Eu o ouvi. Um pingo, um pulo, um pouco. Um ponto. Um ponto redondo, negro, firme, grosso. O fim da frase, e de repente: ponto. Era uma página meio amarelada, sinais da umidade dos dedos, uma mancha da qual a origem não pude detectar. O que você pensa quando chega o ponto? Quando finda a frase, quando finda é o nada? O nada, depois do ponto. Era o fim da página. 32. Lia-se “os olhos secos, em interrogação”. Quem sou? Daquelas que lêem novamente pois voou o pensamento quando deveriam preencher o todo as palavras? Quem não entende o que leu, ou quem agora parte, e marca a página? O que fazer com o ponto? Interrogação, vírgula ou exclamação? E depois, então?

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Sobre os olhos

outubro 17, 2009

Eu agora vejo
Vejo gente inconsciente
Inclemente
Indecente
Pessoas e seus narizes
E seus umbigos
E o olhar vazio
Vejo gente a reclamar
E crer que podia sem fazer
E crer
E parar, estacar num canto
Há papéis no chão
Há gotas de sangue
Balas e tiros
Miséria lá fora e miséria lá dentro
Pessoas e seu ódio
Sua intolerância e medo
Rancor, fome, moeda
A criança debruçada no vidro do carro
O risco das luzes
A vida parada e em movimento
Inerte, soluço e solução
A dor e o prazer a seu contento
Eu vejo rostos, eu sou um rosto
Eu vejo lágrimas, lírios, asfalto
Gente olhando pra baixo e pro alto
Eu vejo vocês, tão longe e tão perto
Eu,eu,eu
Eu sou tanto e tão pouco
Sou eu e o mundo
Eu vejo gente louca, inocente
Torpe, cega, demente
E eu sou toda crítica
E toda a reclamação
Assim como és também
Logo eu vejo
Vejo que está tudo errado
E há algo a me dizer
Que talvez, e tão somente
Nós possamos ver só gente

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Sobre inexistirem palavras

outubro 11, 2009

Sempre permeei o universo de palavras. Eu e minhas próprias, recheio de tagarelices, eu e minhas idéias, das mais tontas às mais argutas. Em todas elas, pressupunha-se o palavrório que há nas árvores, nas folhas, nas casas, nos bairros, nas esquinas, nas minhas roupas, nos sorrisos, no Sol e no mundo, ora. Palavras inseridas em O2, quem sabe, e escapando na fumaça de carros e fábricas. Agora, de repente, um farfalhar curioso atrás das minhas orelhas sussurrou outra possibilidade: e se não houver palavras? E se nada disso tiver mesmo nome, além dos que o inconformismo humano pôs-se a batizar? Sugestão louca, claro, mas e se insana for mesmo a nossa mania de dar a tudo um nome? Por que ti-jo-los, por que ca-sas, por que nu-vens? E por que amor para um algo cujo significado somos unanimemente incapazes de definir? Por que se adora e não se odeia aquilo que se adora? Por que caramba, e não carambola, que, afinal de contas, por que é fruta? Algumas palavras se encaixam mesmo em suas belezas, como nenúfar ou saudade, mas outras não, como comida e bola. Mas e beleza mesmo, que é tão feia a palavra! Por que certo não pode ser errado, e errado certo? Por que respostas, quando importam as perguntas? Será outra mania, a veemente ingenuidade (ingenuidade?) humana em julgar que sabe as respostas e que só estas estão corretas? Viram? Mais palavras. Ou apenas esforços de letras que se queriam compartilhar com outras.

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Les enfants

outubro 8, 2009

“Expectativa é o lugar para o qual todos sempre devem ir antes de chegar aonde estão indo.”

JUSTER, Norman. Tudo depende de como você vê as coisas. Uma adorável fábula filosófica, tal como a de um principezinho, que muito nos ensina sobre a vida. Quando atingirmos as crianças com esse tipo de leitura, formaremos pessoas cientes de si mesmas.

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Reflexão atemporal

outubro 6, 2009

Segundo a concepção teológica medieva, o tempo é desígnio e domínio divino. Dele não devemos, portanto, nos beneficiar. Ironia: somos hoje parte de uma sociedade que, ainda que laica, segue a regra. O tempo é majoritariamente visto como apenas mais um obstáculo para a concretização de nossos anseios. E são tantos os que perguntam sobre sua real importância! É vulgar ou extraordinário? O bem ou o mal? O tempo é presente para aqueles que com ele souberem aprender, e surge como o barulhento soar de um relógio insone para aqueles que precisam acordar amanhã cedo e resolver apenas o que consideram problemas. Todos depararemo-nos com o tempo ruim, cheio de gordas e ameaçadoras nuvens, e com o tempo bom, que pode ser chuva ou sol. Talvez, o tempo cá esteja apenas para lembrarmo-nos de realizar sonhos enquanto não finda nossa efêmera trajetória. Certamente, nunca uma resposta virá a tempo de entendermos o tempo. Outra vez, o relativismo: quando de uma pedra no meio do caminho, há quem a ignore e siga, há quem tropece e há quem sente sobre ela. E o tempo, afinal de contas, o que é mesmo?