Archive for novembro \26\UTC 2009

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Sobre não ser Matemática

novembro 26, 2009

Em suas palavras, o costume da melancolia sufocava perguntas. Repetia que não as queria, numa voz baixa, adequada às súplicas escondidas sob as pálpebras. Dizia que melhor era conformar-se e aceitar o todo da inexatidão das coisas. Ora, quem tem as respostas? Quem as encontrar, ou que seja uma ou uma dúzia, pode dar-se por satisfeito. Tem bom trabalho feito e saberá sorver a limonada de Sofia com todos os sabores. Pois beba, bebamos todos! Entupamos os botões gustativos! Mesmo assim, continuarão circunstanciais as coisas desta terra, e ele perguntava-se demais. Umas sobre as outras, questões num rebuliço cheio de tons desencontrados, embaraçando os fios de cabelo, enozando sons e emoções, fazendo gritarem as idéias, cada qual mais teimosa. E triste era que resistia, ressentia-se. Nos arroubos de pouca modéstia, pedia para ser só mais um parvo e pequenino ente de um lugar tão grande. Talvez já fosse. Simplesmente porque todos somos ou porque a estupidez de negar perguntas é suficiente para enrubescer as bochechas intelectuais. Eu sempre afirmei que por isso a Matemática me fascina: ela é tudo que jamais seremos. Não importa a complexidade de seus termos, ao final o resultado é o esperado. É aquilo, é mágico, e ponto. E nós somos galhos de árvore e meandros de rio: voltamos à terra, recurvamo-nos, estamos agora aqui ou lá e depois talvez não mais, mudamos o ambiente, determinamo-nos e ora vencemos, ora fracassamos. Mas o maior dentre os indolentes será sempre aquele que disser que é exato. Outra vez: jamais seremos Matemática! Uma coisa triste. Mas se é assim, vou sair agora a caminhar, a ver o Sol e os reflexos nos espelhos, a sentir infinita a beleza de poder ser inexata.

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Riso notório, motivos escusos

novembro 20, 2009

Ah, esse mundo onde hipocrisia é láurea. Olhos argutos, sorrisos tontos, braços que aconchegam falsas verdades e odes aos porcos. Quando digo que, sem exceção, somos um séquito de hipócritas sedentos por conquistas hedonistas, me criticam. Sim!, assim, uns sobre os outros, todos juntos, é mais difícil, pois estamos sempre afoitos por negar nossas falhas. Mas é também muito fácil fazer-me marginal à sociedade e dizer que são vocês os cínicos. Acredito que a dissimulação é parte da natureza humana, e por vezes, até benéfica, evita constrangimentos. Mas a hipocrisia, maldita, principia por esgares pretensos a sorrisos e termina em cédulas nas cuecas, conspirações maquiavélicas e palavras que defendem uma honestidade difusa, tão difusa que sequer chega a existir. Eu fui um dia crítica, mas meus clamores se desvaneciam assim que saíam da boca. De que adianta? Hoje, sou impaciente. Não quero acreditar no niilismo (não acreditar no niilismo é tão somente ser niilista, não?), mas estou indignada e aflora em mim uma raiva que adoece, enquanto os sorrisinhos deles continuam se convertendo em votos nas eleições ou em sucesso estrondoso. Se concordarmos com Weber, então o indivíduo é o microcosmo da sociedade, e esta última é só um reflexo da moral pessoal. Se estamos todos hipócritas, quem nos representa e quem idolatramos, é, logicamente, um corpo e uma máscara. Pedir o fim da hipocrisia e desse cinismo exacerbado que combina perfeitamente com as lógicas do nosso tempo é posição utópica e lisérgica, infelizmente. A fundo, a análise nos dirá que nossa moral é hipócrita, as religiões são hipócritas, as posições, os discursos… e não há nada que se possa fazer a curto prazo para desmantelar as convenções. Mas há o poder das pessoas. Mesmo? E será que queremos mudar?

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Demoro a escrever. A tábula andou rasa de inspiração e repleta de informação. E confesso que escrever poesia às vezes é demais e deveras irritante enquanto estão bagunçando minhas idéias, tentando me convencer de que dois mais dois são seis.

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Quando são apenas sonhos

novembro 10, 2009

Eu e minhas reflexões, e daí a achar que boas coisas têm necessariamente de provocá-las. É uma forma de avaliação: sinto, penso, pergunto? Então, muito bem, aprovado. E um dia destes, uma grata surpresa do mesmo Bertolucci que me faz sentir asco da canastrice de Marlon Brando quando dançava seu último tango em Paris. À primeira vista, “Os Sonhadores” (2003) pode apenas parecer um circo de prazeres, instintivo e despudorado. Mas me atrevi a ir mais fundo na história dos três cinéfilos que presenciam os protestos franceses em maio de 1968. E não me arrependi.

Apesar do clichê do jovem americano que vai à França e lá é confrontado pela “libertinagem”, da qual acaba também se apossando, o filme é construído a partir de diálogos ora simples, ora fascinantes, e encanta pelas referências a clássicos do cinema, visto que se passa em meio ao contexto da demissão de Henry Langlois da Cinemateca Francesa.

Detive-me na dicotomia apresentada entre a harmonia do universo e o caos próximo. Ou em como somos pequenos e grandes, insignificantes e capazes. “Os Sonhadores” mostra a incoerência intrínseca ao ser humano: somos crítica e estagnação. Simultaneamente, a revolta francesa real e a pungência da rebeldia resignada e opaca de uma juventude que só clama e só quer, assim mostrada de forma sincera, talvez algo petulante, pela cabeça dos três protagonistas que com sua intensidade são Godard, Truffaut e Chaplin: inquietude, beleza, arrebatamento e alienação.

Ao passo em que é firme nos tons, e de um desvelo e provocação chocantes para o público conservador, a produção contrapõe-se pela singeleza e pelo lirismo de algumas cenas. Acompanhadas de uma bela fotografia, mesmo as incolores atuações são encobertas pelas possibilidades que através das idéias do filme chegam às mentes inquietas. “Os Sonhadores” tem, mesmo no nome, uma crítica, que decifra a falta de ação inserida inclusive nos grupos de maior integridade social. Ou fui só eu que apreendi isso? Como fazer para transformar nossas atitudes em matéria, em coisas concretas? Talvez o cinema, os livros, a reflexão, a dúvida. Ou talvez eu seja apenas mais uma sonhadora, mas nunca a única.

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Das coisas primaveris

novembro 4, 2009

Eu vinha pensando sobre as flores em que pisava, sem opção. Sobre como são admiráveis nas árvores, e sobre sua beleza caída. Vinha distante, decidindo se devia andar pelo meio da rua para não mais pisá-las, quando acertou-me a possibilidade de que esta talvez seja a coisa conseqüente, a lógica de nós mesmos e de tudo o que aqui está. E entristeceu-me o fato de que quando não estão elegantes nos galhos, ninguém vê que as flores amassadas continuam tão belas quanto antes. Por outro lado, vamos também estar um dia diferentes das nossas primeiras formas, e assim estarão nossas crenças, nossas ideologias, nossos conceitos desconstruídos. Aí, uma forma positiva de ver a efemeridade. Tempora mutantur. O que importa talvez seja o que de permanente e de certeiro nos traz a temporalidade. O que nos marca, o que lembraremos, o que dizem nossas letras de outros tempos. Por aí foi outra divagação. Esta de mais, de tanto, de muito tempo. Eu quero alguém para compartilhar cartas (quem se arrisca?). Tenho um sério e esquizofrênico apreço por aquelas folhas doces cheias de lembranças, de intenções e de impressões, repletas de figuras, cores e sentimentos. E, poxa, hoje cartas são as flores caídas. Mas um dia eu encontro quem as mande, assim como por fim desviei das corolas roxas na calçada.

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Penas

novembro 3, 2009

Estranho como a leveza alojou-se, como perpetrou-me as entranhas e a matéria dos olhos. Estróina, um pouco, e o semblante desanuviado. Mas há sempre que aparecer um se, um som, um tímpano furado. E agora engulo um remédio, um corpo estranho para estranhar a dor e afugentá-la. Eu estou bem, repeti, e é verdade. Dispus as mãos juntas e alcancei a pena; daí para adiante, eu a assoprei, e minha brisa própria refrescou-me a nuca. É preciso (paradoxo?) valorizar as penas nossas, mas meus ouvidos se entristecem com as demais. Ressinto-me, decepciono-me, atinge-me a pungência das mais distantes e profundas tristezas, ainda mais daquelas transcendentes que miram a fronte alheia. Ah, eu quero que um dia descubras o que fazes de ti mesmo: carregas de nuvens teus olhos tristes, e a teu prazer desencontrado tua dor te faz etílico, e teu pranto se faz seco. Há um soco vago preenchendo o ar, um soco entre teus murros torpes, ébrios, plúmbeos. Não escrevia para dizer que estou poeta. A saber, custou-me mais esta volta aos textos, por tempo, zelo e perfeccionismo, mas vim dizer que pouco me importa se lerem os devaneios tontos das minhas mãos; não são meu todo e sabem que muitos quedam silenciosos entre páginas não-virtuais: quiçá os mais insanos, os mais descerrados, os de maiores impressões.  Mas que há a prosa e a poesia para preencherem meus cantos tristes e os alegres, e que as há para me fazerem completa, enquanto cobres com ar e medo teus espaços, e me inquieta que em mãos eu sinta a pena dessa dor que não é minha e me vai além dos olhos.

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Sabia que era só pousar firme a caneta, mas não houve tempo outrora: perdão. E ficam as questões: quem chegou à página 33? Quem voltou à 31? E quem relê a 32? E eu, o que fiz dos pontos?