Archive for dezembro \31\UTC 2009

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Finda um pouco de nós, começa tudo outra vez

dezembro 31, 2009

Ali ao lado, chegara a comemoração. Espantou-se do espocar das garrafas e das saudações em voz alta. Era já um novo dia? Se era, ou não, pegou a caneta que descansava à beira da mesa e sobressaiu-lhe a vontade de tocar nas velhas fotos. Alcançou o álbum, assoprou-lhe a poeira da capa e mirou distante a primeira. Ali ela estava. Alta e angélica, quase um gigante a segurar o menino de pele alva e olhos profundos. Sempre profundos. Agora, estabeleciam contato neles mesmos, um pouco mais experimentados, mas tão perscrutadores e curiosos como outrora. Seus longos olhos escuros fitaram a foto por indefiníveis segundos e dela apreenderam dor e um arrepio sincero de solidão. Continuou, sem mais prestar atenção às outras, quando enfim chegou à última, decerto cansado do estômago e da garganta incertos. Essa era só dele. Não mais havia sonho ou proteção, e lá estavam os olhos, quiçá um pouco mais rasos dessa vez. Os olhos tristes e atentos. A infelicidade feia de suas feições e a mesma boca crispada encobrindo a raridade do sorriso largo e doce, encantadoramente infantil. Os cabelos mudaram, o tamanho, as roupas. E a tristeza seria bonita agora, mas não mais. Estava já um pouco tonto dos goles daquilo que não gostava. Não sabia dizer se ela estaria observando agora e não podia pedir desculpas pelos erros que vinham desde há pouco aos borbotões. Simplesmente vinham; ela não gostaria deles. Os fogos iluminavam a noite nova, já absoluta, e dentro dele tudo era velho e burro, como o ranger de uma cadeira. E a cadeira com seu murmúrio era como a mente inquieta, e assim eram também seus pés por caminhos estranhos. A caneta serviu para rabiscar a foto, o bastante para não mais ver o rosto ou o passado. Era um só rosto, de antes e agora, mas muito distinto. Sabia que para quem o amava era mais belo quando fora feio, mas disso nada adiantava. A foto nas mãos continuava incômoda. Largou-a. Sentiu que precisava da carta; em seguida tinha-a nas mãos. Não se deteve na letra desenhada daquela que lhe escrevera apenas para pedir que voltasse a ver através das lentes desusadas. Sentia medo de amá-la, medo de amar-se, um temor incontido de perder. Hábito há pouco adquirido, acendeu o cigarro. Era mesmo só fumaça. E com a chama miúda, errou mais uma vez: desvaneceu foto e carta, recostou-se no sofá, cerrou os olhos. E assim, fechados, nada tinham dos antigos.

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Texto triste, mas Feliz Ano Novo.

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Por sua fiel companhia, aos livros

dezembro 28, 2009

Caramba, eu topo se de presente me derem livros, livros, livros. Livros a mão cheia, em sacolas, em caixinhas, em abraços. Páginas para tocar, cheirar, comer, sorver. Letras para ler, viajar, saborear, correr milhas, imaginar, envolver dentro da mala e ocupar tanto espaço quanto possível. Livros para mim, que de mim falem ou que me calem, que me beijem ou abracem, que me façam chorar ou sorrir escondida no quarto. Livros para acompanhar os momentos de solidão que preencheram minha infância (não por necessidade, simplesmente pela deliciosa opção), encantaram meus dias, instigaram fantasias e de onde tirei idéias e saber. E mesmo que eu demore a lê-los, só na consciência tê-los já basta. Estarão na minha estante, a olhar pra mim e conversar entre si, à espera de momentos que virão, com tanto vigor e paixão que me entristece a brevidade dos dias em que me acompanharem. De ler um livro no dia exato, como um sinal, de reconhecer-me aqui ou lá, de escrever minhas próprias histórias. Disso jamais sentirei saudade, posto que de tais coisas me vejo nunca apartada. E teimo em homenageá-los, bem como às palavras, e teimo em fazer com que leiam aqueles que amo. Pois somente nos livros podemos expandir os segundos e estar em dois lugares ao mesmo tempo. Somente através deles podemos ver nos dias coisas que não víamos.

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De Natal ganhei um livro. É Capitu, e estou simplesmente encantada e afoita por lê-lo. Agradeço aos que o escolheram, meus “mecenas” preferidos!

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Manias antigas

dezembro 22, 2009

Minha mãe balança a cabeça, meu irmão sorri. O que fazer? Eu ainda compro CDs, dispendo dinheiro em livros de sebo (e só sentir o cheiro das páginas amarelas – às quais sou alérgica, inclusive – já me faz bem), vez ou outra encontro um disco legal e, ré confessa, faço pesquisa usando enciclopédia de papel. Falando assim, esqueço de dizer qu música em formato mp3 é algo indispensável hoje, principalmente porque “abre as portas da percepção”, e nela me amparo para encontrar novidades e cavar clássicos. Longe de desmerecer a internet, acho que sou mais do mundo real: de ver e sentir as coisas (não com os dedos no teclado), de escrever a lápis, redigir cartas, falar com a voz e olhar nos olhos. Mas nasci a dez anos do fim do século XX, e somos a geração Y, T, A ou B, como a queiram nominar. Saber que sou mais jovem que a internet domiciliar me faz sentir um toco de gente, eu que nem vi os Beatles ou os Ramones, e nem ao menos pude pintar o rosto pelas diretas. Dizem que saudosismo é burrice, mas eu sofro porque hoje tudo é líquido (líquido? Acho que é tudo vapor, e em misturas gasosas não há nuances) e antes que escolhamos uma atitude, ela já foi desvendada, desmembrada, dissipada e divulgada em matérias de comportamento nas revistas! O Twitter é a ferramenta perfeita mesmo, porque em 140 caracteres, você começa, desenvolve e termina. Eu temo por nós que aqui estamos com nossa maioridade recente, cujas conversas são melhores por msn, cujas bandas preferidas são boas por uma semana, até que surja a nova salvação do rock. E estou apiedada pelos ainda mais jovens, adeptos da democracia de uma moda que torna todos iguais e de uma cultura que prega pose e passividade em goles cada vez maiores. Eles estão embevecidos por seu estilo, por seu cabelo e por suas fotos. Talvez eu é que esteja colecionando motivos para me desconcertar: a adolescência é atemporalmente um segredo de liquidificador. Mas é Nietzsche quem alerta que desconfiemos de pensamentos que vêm quando estamos sentados e eu me preocupo, ora!, que o conforto exacerbado de nossas cadeiras esteja nos restringindo aos 140 caracteres.

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E eu que ia falar dos meus CDs e livros? Justifico: eu não quero só comida. Comida é pasto.

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Dos diferentes volumes

dezembro 21, 2009

O Barroco, ou Seiscentismo, foi o exagero, o maneirismo, a antítese e a denúncia do desconcerto do mundo. Como sempre na vida e na literatura, a extravagância sucedeu a um momento quase onírico, desta vez o Classicismo, cortina branca deixando entrar uma réstia tranquila de sol matinal. O Barroco veio cheio de ouro, metal de revoltas e cobiça. É a adolescência da arte, e suas nuances intensas, e seu brilho cego de luzes e desencontros. E agora estou eu barroca, que sempre há uma tardia intenção adolescente em nossas cabeças. Tanto que já nem escrevo, nem paro a prestar atenção, nem me acalmo. Uma barroca um tanto apática, só pra justificar minha ausência aqui. E como toda a exuberância é melhor notada se segue à limpidez opaca da sobriedade, eis aí um achado que fiz num dos meus cadernos, sobre o silêncio. Acho que evoluí, e nem ao menos creio que o trecho seja bom, mas um blog é afinal um exercício da vaidade, então…:

Adoro a profundidade do silêncio. É tão rara e tão maravilhosa. Calam-se as vozes, as inseguranças, as ansiedades. Silenciam os barulhos dentro de nós. Mas coloquei uma música nos ouvidos, porque o barulho surdo das fluorescentes aqui é desagradável. E a música, como o silêncio, cansegue calar muito do que nos perturba. Consegue nos mostrar que a quietude da alma se dá também com bons barulhos. Pena que há ruídos incessantes. O das lâmpadas na biblioteca de aparência tranquila. E por vezes os ruídos da nossa mente, quando nada mais há que os ouvidos ensurdecidos pela tagarelice da consciência ouçam.