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Crepúsculo dos clássicos

março 28, 2010

É inestimável o valor dos livros. Jamais eu viveria na ausência deles e tampouco entendo como podem outras pessoas. Pois estes dias meu irmão brigou mais uma vez consigo graças aos clássicos. E me ponho a repetir que, não que ele tenha razão, mas a forma como esta “categoria” em particular é apresentada (imposta?) aos alunos, normalmente, somente causa transtornos intelectuais. Utilizando um quase jargão, é impossível que se faça um adolescente não íntimo dos livros gostar justamente dos mais rebuscados e que, por sua excelência – e complexidade – são alcunhados clássicos.

Passando em frente a uma livraria, deparei-me com uma cena triste: O Morro dos Ventos Uivantes, obra de Emily Brontë, era oferecido como “o livro preferido da protagonista da saga Crepúsculo“. Infeliz a maneira como hoje o mercado editorial põe à prova seus títulos: é preciso comparar os mais exigentes com os mais populares, para ter garantidas as vendas.

Defendo que a iniciação literária se dê de forma simples, simpática, atraente: pela capa, pela fantasia, pelo mel ou pelo sangue escorrendo… ótimo, contanto que haja iniciação. O triste é que hoje, para ultrapassarmo-la, é necessário vincular bons livros a outros nem tanto, num esforço fatigado, um último suspiro atrás de bons leitores. Ou talvez o mercado nem esteja preocupado com a leitura d’O Morro dos Ventos Uivantes, mas com a desova dos acúmulos empoeirados nas prateleiras estritamente publicitárias das livrarias. Talvez seja apenas eu, romântica e sonhadora demais pela leitura do Crepúsculo

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Símbolos

março 21, 2010

Era um sinal em forma de T. Simples, continha luzes nas cores vermelha, verde e amarela. À sua aproximação, as pessoas paravam. Paravam, simplesmente, diante do T metálico que sequer podiam tocar. E então eu, mais uma vez, me pus atônita ao deparar-me com a força com que nos detêm os símbolos. Há um momento, que verdadeiramente nem costuma demorar, em que somente a vista vale para que respondamos tradicionalmente aos sinais; não mais reconhecemo-los; eles nos bastam por seus significados empíricos. (Quer dizer, o T vermelho, verde e amarelo, bem como placas e rotatórias, deveriam ser introduzidos formalmente ao círculo social dos hamburguenses, mas aí é outra história).

Na Comunicação, particularmente, os símbolos têm profunda importância e a percepção inconsciente deles por nós, a qual temo, pode ser manipuladora e dissimulada. Assim que, perdão, jamais eu hei de defender a Publicidade e por vezes mesmo o Jornalismo. Não são brincadeiras com palavras ou imagens. São meios eficazes para fins diversos. E, conquanto maquiavélicos na mão de alguns, são meios que se justificam pelos fins. Quando se diz inocente, a Publicidade nada mais está fazendo do que se utilizar deliberadamente de um outro símbolo: o símbolo moral que nega e evita a culpa. E enquanto você toma o cervejão, porque impossible is nothing e este é o último dia da sua vida, ela brinca com mais um símbolo. Este outro passível da incredulidade do meu irmão, que estes dias olhou para as notas e disse: “Pessoas trabalham, estudam, morrem e matam por papel. Que coisa ridícula!”. É, que coisa ridícula.

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Agora

março 11, 2010

Há pouco aprendi que as maiores mudanças, no meu caso, acontecem ao sinal de um estalar de dedos – não, não porque eu as queira e simplesmente as conquiste, quando me convier: porque são rápidas, certeiras e, se me permito o adjetivo, fatais. Quando escrevi o que deixei em 28, 29 ou 31 de dezembro, jamais afirmaria a possibilidade desse tanto que me anima e aflige. Tampouco sei dizer se estou medindo as melhores escolhas, ou se estas são as mais negligentes.

Desde o dia 10 de janeiro, experimento cheiros que atiçam e inibem o faro. Mantenho minhas contradições (tais como animam e afligem, atiçam e inibem), mas entendi, num clique, a inevitável aparição dos desafios. E que o que se quer – foi um soco na covardia! – precisa ser conquistado. Eu que não lia no ônibus agora escrevo do ônibus, e minha letra se entende (acho até que está bonita).

Vestibular, Fórum (e todos os seus detalhes), listão, Metallica, fim de um estágio, início de outro, a rotina doida das quase sessenta horas semanais, a constatação de que sim (e antes que eu imaginasse), farei aquilo que fizeram o Kleiton e o Kledir. Então, tchau!

Nesse ínterim, a aproximação intensa com essas amigas que são um presente e a relativização de uma ideia, um sentimento que eu dobrei até caber na bolsa e agora não preciso mais confrontar seu peso em minhas mãos (até ideia sem acento eu escrevi!). E nesse momento conviver com esses letreiros na rodovia – putz! borracharia com x?! – e com as situações degradantes que ela encerra: os corpos no piso, os pneus marcados, carros protegidos pelos vidros das vitrines, a desesperança humana temperada ao vento, essas vigas de concreto sem pintura; essas cidades, cortadas pelo trem que salva do horário insuficiente a vida de tanta gente. E desde então tenho aprendido muito mais com meus erros e acertos, já que tudo está tão mais rápido.

O ônibus está chegando; hora de pegar o segundo. Por enquanto não tive motivos para crer que é infame acordar às cinco e meia para realizar uns sonhos, quiçá tortos, quiçá lindos.