Archive for maio \24\UTC 2010

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Dos fantasmas debaixo da cama

maio 24, 2010

Um pio lúgubre reverberou em verso. Um verso rouco, insano, clemente. E a canção tiritou nos braços dele: arrepiaram-se os pêlos e juntaram-se os joelhos, apequenados no negror do quarto. O pio cessou, e arrastou consigo todo o som. O respirar trepidava no silêncio, incerto. O ar que dele entrava e saía, nuns longos arquejos, cresceu. Sentiu frio. Não parecia mais involuntário; sequer parecia ar, denso como a estafa. Mediu a boca, o nariz, os pulmões. Os suspiros tornaram-se mais largos a cada inspirar e pareciam quebrar-se na direção dos pulmões; o peito doía. A janela deixava ver, detrás da cortina, uma réstia do Sol pungente – o vento a levantara e descobrira a escuridão. Numa das pontas da cama, ele ria encolhido, o riso nervoso dos culpados. E apegava-se no ritual inexato do respirar. Tudo em seu controle, não pensava mais nada, pesava somente o ar saindo pelos lábios entreabertos. E não conseguia, no seu intento, capturar o oxigênio de que precisava. Sufocava-se, ébrio de um perfume cálido que preenchera todo o quarto, sem saber donde vinha. A doçura que o inebriava; sentia o gosto na língua. Desesperou-se; o cheiro obstruía a garganta, os olhos sorviam o escuro, a cortina voltara ao lugar. A boca começou, em frêmitos, a buscar ar, sem êxito. O medo era longo; maior que o corpo, a janela, o quarto. Uma das mãos foi suficiente para apertar o nariz, crispar a boca, cerrar os olhos e esperar, encolhido e pálido.

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Verdades cegas

maio 6, 2010

Uma experiência contundente anteontem me fez andar 200 metros a mais. Pouco assim, e mesclou a agudeza do fato exposto com a doçura de tê-lo compartilhado, eu e meus 200 metros.

Ao que tudo principiou pela impaciência de esperar o ônibus por quinze minutos, para depois realizar em quarenta um trajeto que, a pé, poderia fazer em trinta. E assim minha figura, dividida entre o aborrecimento e essa teimosa reflexão que adoro e que me diz que o período do trajeto compõe-se de retratos recortados de uma introspecção que me incita ao egoísmo inocente de pensar; não mais que isso.

Ele chegou e, àquela hora, detive-me apenas no fato de que era cego. A cegueira é, para mim, a mais triste das incapacidades físicas: morreria sem meus livros, meus papéis, minhas letras e olhos para ler. E minha vida estaria embaçada pela impossibilidade da fotografia, de outros olhos, da contemplação. Imaginei-me esperando pelo ônibus, pelos outros, pela beleza (que não é mais bela senão pelos olhos e suas faculdades) com a vista cerrada. Donde eu enxergava a escuridão rasgada pelas luzes das ruas eu nada veria. Eis aí uma boa figura para desígnio do nada, aliás.

Ele perguntou pelo ônibus: era o mesmo pelo qual eu esperava. Dediquei-me a responder por suas repetidas perguntas, a cada um dos ônibus que passava. Assim, dispus-me a ajudá-lo a entrar e da mesma forma quando saiu, e ainda enquanto o levava para seu destino, o braço enlaçado no meu, no que resultou os 200 metros a mais. Não importa; não escrevo para dizer de uma cunhada “boa ação”, pois este é um conceito que necessita de reflexão, quando entendermos que as boas ações não existiriam caso fossem comportamentos insubordinados. Mas este seria um mundo muito, muito melhor do que o nosso.

Sua cegueira iluminou-me para perceber outra vez a grandiosidade e a maravilha que estão nos meus olhos. Donde há de vir, intrínseca, a reflexão quanto à fragilidade daquele homem. A inépcia dos seus olhos tornou-o passível de forma mais explícita dessas crueldades que a todos nós podem acometer. Apesar disso, o ser humano supera-se (por que não tentar?) e ele parecia feliz, a bengala firme numa das mãos, tateando um mundo belo nos sabores, significados e sensações; um mundo invisível?