Archive for junho \21\UTC 2010

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Anarquia cognitiva

junho 21, 2010

Agora mesmo ouvi um barulho. Começou agudo e baixo – como pode? – e os minutos levaram-no ao tom alto do seu ápice. Então, silêncio. Das vozes mais indistintas que se calaram ao mesmo tempo, adiantando aquela que se sobreporia quando mais ninguém falasse. Não houve quem o fizesse, não havia qualquer som. Às vezes sentia a forma das linhas dos sons, desenhando-se geométricas diante dos meus olhos, como as fotografias noturnas que a baixa velocidade torna borradas. Como luzes, os sons chegariam. A música disforme veio, e antes que a pudesse ter nas mãos, nos dedos um arroubo de vitória hercúlea, pronto: foi-se. Tenho a impressão de que os sinais de pontuação não dizem tudo o que eu quero, não estão os pingos nos is como eu desejei. As linhas na testa, o esgar nos lábios, os olhos em órbitas sarcásticas. Os pontos não expressam. E aquele som que veio e se foi; mais um dentre os milésimos espremidos nos segundos em que me toma uma plenitude mansa e diz que há tanto por fazer aqui, não como dever, mas como vida. Belezas ímpares, histórias, passos sob o céu. A frustração dos pontos é só uma das imperfeições necessárias.

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Aniversário!

junho 6, 2010

Uma idéia tímida, um início a menos. Ou um a mais. Como sempre, sem pensar no fim, ou antevendo-o. Assim que eu, há um ano, absorvi do plano platônico e trouxe para mais perto o blog. Um ano. Surpreendente, afinal. Para quem não lhe dava mais de dois meses, o tempo relativizou-se. Eu dentre estes. Espero que se construa sempre de pensares, verborragias pertinentes, bobagens sedutoras. Desejo que eu consiga, assim, passear por mim e trazer as lembranças das viagens, como cartões postais anônimos de paisagens particulares.

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Dois pontos

junho 6, 2010

Cada traço do seu corpo doía, ao saber de mais um longo e ininterrupto dia sob a batuta desordenada da nefasta realidade. Nunca antes tivera tão sensível o toque do tempo na sua pele. As horas arrastadas e peçonhentas culminavam em dias infrutíferos de uma traição tremenda aos próprios olhos. Os dias, pouco a pouco, lentos como uma serpente satisfeita, teciam semanas, que teciam meses. O corpo parecia fragmentar-se; detrás dos olhos um torpor dolorido, pelo nariz a respiração pesada, nas costas o ar acomodando-se densamente. O Sol cálido após a janela era mais um dado da prisão, da tristeza infinda dos tempos mortos e resignados. Doeria sempre: um espinho cravado diametralmente nos sonhos maculados.