Archive for setembro \27\UTC 2010

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Açúcar da infância

setembro 27, 2010

Diziam mais do que eram simples
Me salvariam da tristeza
Da doença, os olhos baços
O estômago vazio e o asco
A ânsia das ideias e o medo
Retiveram-me hoje na infância
Nas mãos repletas da mãe
Das veias azuis, pretensiosas surgindo
Dos desenhos animados nas tardes geladas
Sob o cobertor velho e xadrez
Como têm de ser os dias de náusea.
E como eu delas gostava
E agora as vejo na bolsa, e sorrio
Da cegueira parcial do passado
A doce nostalgia das rosquinhas de glacê

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Ora, e não é que cá estão poesias? Decerto, um pouco doídas, magoadas da minha implicância, que sempre as esconde, e que delas nunca se orgulha como à mãe parece decente. Mas estão aqui, e sinto a ideia assim exposta porque não as acho as melhores. Agora, um detalhe: que quer aquela que não é minha, de seis versos, curto trejeito, acompanhando o trajeto, que no ônibus sempre me espanta? Ela está lá, e me assusta sua pontualidade. Já se foram três, cinco, oito vezes. Me faz sorrir enquanto sigo pra casa, tonta desses acasos estranhos. E diga-se que já a acho bela, velha, familiar. Ganhou ou perdeu poesia nesse caminho de aproximação?

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De um que me escapou

setembro 13, 2010

Se não fluem meus poemas
Deixo que fiquem
No baú angustiados
Inanimados
Mortos de medo
De exporem-se à luz
E me sinto plena de dor
De aprisioná-los em mim
E quero soltá-los
Mas são crianças
Pequenas e brandas
E tristes como flor dos dias cinzas
E corolas doentes
Das cabeças dementes
Que pensam
E pensam
E demoram-se a sentir.
Um conto bonito.
Com as páginas rasgadas.

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Depois que perdi meu caderno, com o último dos poemas que eu gostava, parece-me dolorido o passar dos dedos. Sinto a velhice nos meus escritos, a poeira que os envolve, e que pelo menos não lhes dá mais o ar infantil dos primeiros amores, aqueles que se perdem em seu próprio arrebatamento. Depois de esquecer que preciso escrever, e é algo que me consome, entendo que as rimas são os grandes venenos da poesia. Deixe que fiquem assim incertas, assim imperfeitas, que é de onde são belas como a irregularidade dos dias (e dos sentidos).