Archive for dezembro \20\UTC 2010

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Esquecimento

dezembro 20, 2010

Escrevo mais quando estou triste. O lápis flui leve, que minha força se desvanece com a alegria, que meus dedos não querem falar, e estão soltos, e estão túrgidos e sofrem, e se querem ver distantes quanto mais rápido que seja do grafite que os arranha. É quando digo as coisas mais bonitas, e me dói particularmente a tristeza que não me deixa escrever, uma tristeza seca, descrente, que perambula num estágio lisérgico entre vida e morte e quer apenas se deixar dormir e morrer. A tristeza tem sido assim, e é desesperador que não faça nascer poemas, que são a dor derramada, deixando momentaneamente o corpo e marcando o papel como agulha, como uma seringa fazendo verter as letras, despejando-as e aliviando as lágrimas que incham os olhos sem cair. Essa é a tristeza mais velha, iníqua, vetusta sobrancelha erigida em dúvida, que sequer pergunta, sequer se alimenta, e tão somente vive de expandir-se. Essa que machuca minhas ideias, eu que só queria poemas de tristeza bela, da que abençoa e concerne aos bons poetas, os que conseguem fingir a própria dor.

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Da tristeza

dezembro 15, 2010

Queria apenas um veneno, um líquido viscoso para engasgar a dor, enquanto soluçavam a garganta, a língua e os dedos trêmulos. Queria um motivo para findar a tristeza, que, ela tão sem motivo, tomara-a de tal forma que agora a levava no colo, como a um pássaro doente. Queria, e não sabia se queria, negar os olhos baços, a boca seca, o corpo cansado. A alma inerte, parece morta, parece alva, parece velha e cheia de anéis. Parece triste, como nunca outrora, e já deixa que lhe comam vermes famintos, e já está plena de asco. E a dor, tão grande que não cabia, não sabia donde vinha, não sabia, e doía a ignorância, e doía a pena, a conservação e o calor. E doía a denúncia, a condolência, o fardo e o castigo de ser dor sem ideia, sem trejeito, sem qualquer lembrança. E aos poucos dormia, e em sonho era só o que fazia, e chorava um choro túrgido e vago, uma lágrima seca que lhe perfurava o fundo dos olhos.