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As sombras daquela casa

outubro 7, 2014

Dizia e desdizia-se, incluindo um ou outro elemento pra preencher os vazios da história. Da história restou-lhe o vazio, um peso que carregava e que se dispunha a carregar em prejuízo do perdão. Eu não queria que ela o perdoasse: doía-me a monstruosidade dele, e os olhos arregalados dela enquanto contava. Era coisa pra vida toda, conviver com a vergonha implícita, dessas que toda mulher sente em algum ponto por algo de que não é culpada. O baixar das calças, entre risos e olhares aguçados. Dedos de ojeriza, olhos de monstro. Como alguém é criança, se lhe tiram a infância numa e noutra noite de pesadelo? Daí eu ter pesadelo na noite passada, lembrando o que deu início à confissão e tudo aquilo que lhe impedia o final. Fiquei sonhando, entre acordar e dormir, com a atmosfera de medo e insegurança, com a meia luz permeando a cena, com o depois cheio de áridos silêncios. Uma arma que ele carregou, uma vergonha de que se despojou, sua hombridade que lhe fez militar. Talvez a mesma expressão por detrás de lentes de milico enquanto eu o imaginava agredindo inocentes discordantes. A morte dolosa numa cama de hospital, pena de crimes indizíveis. Segredos de Estado e de família.

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