h1

Entre o ônibus e a rua

agosto 30, 2018

O ônibus vai aos solavancos, dificultando minha tentativa de manter as lágrimas presas entre o rosto e os aros dos óculos. Escapam, enquanto eu vislumbro com desatino a obrigação perdida de animar-me em um dia de sol. É caso que mesmo eu estou farta do frio, e suponho que de mim estejam fartas as lágrimas.

Não vou cobrar solidariedade de quem tiver assistido à denúncia do meu choro quieto. Quando o ônibus para, desço. Fingindo que as coisas vão bem, aguardo que o sinal vermelho infindável me autorize a seguir. O sinal virou metáfora, a fala impostada da personagem da série a que eu assistia ontem virou refrão, ainda que eu nem lembre mais das palavras. Me contenho no exercício incessante de encontrar respostas a perguntas que eu mesma faço. Não sei se por evitar o tempo que inevitavelmente vai sobrar ou se para desenhar um caminho de fórmulas e estratégias a fim de burlar o sinal.

Me divido sempre entre o certo e o errado. Quando erro, me tocava acertar: é sobre atravessar a rua cheia sem a anuência dos carros. E quando acerto, me parece erro. É sobre ser invariavelmente incompleta, falida. Queria ter deixado as lágrimas no chão do ônibus, livres de mim, a seguir o caminho que eu interrompi. Errei de novo e elas, despercebidas, se alojaram debaixo da roupa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: