Archive for the ‘Tudo e nada’ Category

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As sombras daquela casa

outubro 7, 2014

Dizia e desdizia-se, incluindo um ou outro elemento pra preencher os vazios da história. Da história restou-lhe o vazio, um peso que carregava e que se dispunha a carregar em prejuízo do perdão. Eu não queria que ela o perdoasse: doía-me a monstruosidade dele, e os olhos arregalados dela enquanto contava. Era coisa pra vida toda, conviver com a vergonha implícita, dessas que toda mulher sente em algum ponto por algo de que não é culpada. O baixar das calças, entre risos e olhares aguçados. Dedos de ojeriza, olhos de monstro. Como alguém é criança, se lhe tiram a infância numa e noutra noite de pesadelo? Daí eu ter pesadelo na noite passada, lembrando o que deu início à confissão e tudo aquilo que lhe impedia o final. Fiquei sonhando, entre acordar e dormir, com a atmosfera de medo e insegurança, com a meia luz permeando a cena, com o depois cheio de áridos silêncios. Uma arma que ele carregou, uma vergonha de que se despojou, sua hombridade que lhe fez militar. Talvez a mesma expressão por detrás de lentes de milico enquanto eu o imaginava agredindo inocentes discordantes. A morte dolosa numa cama de hospital, pena de crimes indizíveis. Segredos de Estado e de família.

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Coisas da minha cabeça

maio 23, 2011

Coleciono bobagens, ninguém as lê. Sequer prestam-lhe as menores atenções. Quando então eu disser as piores delas, e ferir, magoar, romper os fios que nos ligam, direi que é tua a razão, e que tu és a razão. E que eu tenho dito tanta bobagem, tanto medo em palavras, cuspindo bobagens, roubando bobagens. Eu tenho estado tão triste, que em mim só transpiram torpezas, e só caem frutas de galhos tão altos, que ao chão se fazem podres. Eu queria sentir, e de vontades me faço ausente. Eu quero tremer, sorrir, amar, como se tivesse que costurar-me a alguma dessas coisas, para provar que sou real, e não só um pedaço de alguma dessas coisas estúpidas que fogem da minha boca.

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Um texto, um murro, e qual é a diferença?

janeiro 11, 2011

Emendas ao verso, foi o que ele sugeriu? Não sei. Já não lembro. Mas era para ser alguém que se parecesse comigo, e daí a pensar em quanto isso pode ser assustador, um pulo. Há, na mesma cidade onde nasci, uma homônima. A uma artista argentina acrescenta-se apenas o Maria, precedendo o Fernanda. Nos olhos dele, tudo se parecia. Dele, de outro. E ela dizia que éramos amigas porque éramos assim simplesmente quase iguais. Eu gosto de estar com pessoas que se pareçam comigo. Paradoxo, pois nem sempre gosto de fazer-me companhia. Eu gosto de ver o sorriso da concordância, aquele que diz “é mesmo? Achei que ninguém pensasse como eu”. Ainda estou por aprender com as divergências, pois na minha pacata filosofia da tolerância, descobri que esse tempo todo estive passando, apenas, pela diferença. Eu só a via, acenava, e nunca alonguei diálogos. E pra findar o dia, me fizeram pensar. Pensar. Pensar. Até que, como não tem sido difícil nos tempos do “E agora?”, vieram as gotas salgadas. Eu tentei a todo custo apará-las dentro dos olhos. Mas se parecem comigo. Teimosas. Eu tentei dizer, como sempre digo, que não é possível. Otimista que sempre achei que fosse, descubro a cada dia que minha característica mais fascinante (o que não diz dela que é boa. Pode ser fantástica e triste, uma soma) é fazer valer para todo o mundo o que em mim bate, e volta. Acabei rindo, fui dormir com as lágrimas secas. Mas quem sabe? Quem sabe seja isso mesmo, e elas tenham razão. Não prometo nada. Mas talvez eu mude, pra variar. E dessa vez, como nunca outrora, eu peço que não haja decepção. Não agora, por favor: estou mudando por ti.

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Esquecimento

dezembro 20, 2010

Escrevo mais quando estou triste. O lápis flui leve, que minha força se desvanece com a alegria, que meus dedos não querem falar, e estão soltos, e estão túrgidos e sofrem, e se querem ver distantes quanto mais rápido que seja do grafite que os arranha. É quando digo as coisas mais bonitas, e me dói particularmente a tristeza que não me deixa escrever, uma tristeza seca, descrente, que perambula num estágio lisérgico entre vida e morte e quer apenas se deixar dormir e morrer. A tristeza tem sido assim, e é desesperador que não faça nascer poemas, que são a dor derramada, deixando momentaneamente o corpo e marcando o papel como agulha, como uma seringa fazendo verter as letras, despejando-as e aliviando as lágrimas que incham os olhos sem cair. Essa é a tristeza mais velha, iníqua, vetusta sobrancelha erigida em dúvida, que sequer pergunta, sequer se alimenta, e tão somente vive de expandir-se. Essa que machuca minhas ideias, eu que só queria poemas de tristeza bela, da que abençoa e concerne aos bons poetas, os que conseguem fingir a própria dor.

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Da tristeza

dezembro 15, 2010

Queria apenas um veneno, um líquido viscoso para engasgar a dor, enquanto soluçavam a garganta, a língua e os dedos trêmulos. Queria um motivo para findar a tristeza, que, ela tão sem motivo, tomara-a de tal forma que agora a levava no colo, como a um pássaro doente. Queria, e não sabia se queria, negar os olhos baços, a boca seca, o corpo cansado. A alma inerte, parece morta, parece alva, parece velha e cheia de anéis. Parece triste, como nunca outrora, e já deixa que lhe comam vermes famintos, e já está plena de asco. E a dor, tão grande que não cabia, não sabia donde vinha, não sabia, e doía a ignorância, e doía a pena, a conservação e o calor. E doía a denúncia, a condolência, o fardo e o castigo de ser dor sem ideia, sem trejeito, sem qualquer lembrança. E aos poucos dormia, e em sonho era só o que fazia, e chorava um choro túrgido e vago, uma lágrima seca que lhe perfurava o fundo dos olhos.

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(a)Braços

novembro 8, 2010

Um braço enlaçado noutro
E um deles que demais doado
O meu, se divide demasiado
São meus membros compartidos
Até que doam
Até que sangrem
Até que morram
E morrem em cada partida
Em cada sofrer da mão alheia
E se levam por outros braços
Frouxos, e além egoístas
E rastejam até que se enlaçam
E passam
Sem que os meus deixem ilesos.
Meus braços são só linhas tristes.

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Tempo seco

novembro 4, 2010

Um suspiro. Mais um. Precoce veio a dor que acalentou a manhã de calor doente. E engraçado que soou ligeira, libertou-se fácil entre as lágrimas quentes, repletas de um desespero silencioso. E doeu, sincera, como se prenunciasse a anestesia. Os pingos salgados, aos poucos parcos, negaram-se a deixar os olhos. Caíam enquanto ninguém os via, caíam sob o disfarce das lentes, sob o rosto impassível que não se quer denunciar. E muitos se foram, e outros tantos deixaram os lábios salgados. Não cessaram enquanto estiveram atentos os olhos, antes que o sono vingasse as lágrimas e o cansaço. E as ideias, que eram tantas, eram tolas, eram tontas. Uma colher confusa no açucareiro, construindo e refazendo a casa doce e estúpida. E havia medo, daquele dentre os temores bobos das convenções, que dizem que é preciso encontrar-se e jamais perder. E nunca perder-se, e nunca morrer em vida. Quando se morre um pouco a cada dia, e noutros mais que em uns, e neste demasiado… Se fosse um poema, viria repetido, carregado dos mesmos versos infalíveis, que todos juntos seriam nada. Apenas estrofes toscas, apenas escolhas vãs. Vãs: inexoráveis. É o que se tem, é do que se duvida. Havia o medo da perda, de não ser o que é preciso, de estar aí a conflagrar vidas alheias, e nelas não depositar nada de bom. Daquelas tristezas que deviam morrer tímidas, sem sequer aparecer antes que se percebam modorrentas como o dia.