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(a)Braços

novembro 8, 2010

Um braço enlaçado noutro
E um deles que demais doado
O meu, se divide demasiado
São meus membros compartidos
Até que doam
Até que sangrem
Até que morram
E morrem em cada partida
Em cada sofrer da mão alheia
E se levam por outros braços
Frouxos, e além egoístas
E rastejam até que se enlaçam
E passam
Sem que os meus deixem ilesos.
Meus braços são só linhas tristes.

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Tempo seco

novembro 4, 2010

Um suspiro. Mais um. Precoce veio a dor que acalentou a manhã de calor doente. E engraçado que soou ligeira, libertou-se fácil entre as lágrimas quentes, repletas de um desespero silencioso. E doeu, sincera, como se prenunciasse a anestesia. Os pingos salgados, aos poucos parcos, negaram-se a deixar os olhos. Caíam enquanto ninguém os via, caíam sob o disfarce das lentes, sob o rosto impassível que não se quer denunciar. E muitos se foram, e outros tantos deixaram os lábios salgados. Não cessaram enquanto estiveram atentos os olhos, antes que o sono vingasse as lágrimas e o cansaço. E as ideias, que eram tantas, eram tolas, eram tontas. Uma colher confusa no açucareiro, construindo e refazendo a casa doce e estúpida. E havia medo, daquele dentre os temores bobos das convenções, que dizem que é preciso encontrar-se e jamais perder. E nunca perder-se, e nunca morrer em vida. Quando se morre um pouco a cada dia, e noutros mais que em uns, e neste demasiado… Se fosse um poema, viria repetido, carregado dos mesmos versos infalíveis, que todos juntos seriam nada. Apenas estrofes toscas, apenas escolhas vãs. Vãs: inexoráveis. É o que se tem, é do que se duvida. Havia o medo da perda, de não ser o que é preciso, de estar aí a conflagrar vidas alheias, e nelas não depositar nada de bom. Daquelas tristezas que deviam morrer tímidas, sem sequer aparecer antes que se percebam modorrentas como o dia.

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Açúcar da infância

setembro 27, 2010

Diziam mais do que eram simples
Me salvariam da tristeza
Da doença, os olhos baços
O estômago vazio e o asco
A ânsia das ideias e o medo
Retiveram-me hoje na infância
Nas mãos repletas da mãe
Das veias azuis, pretensiosas surgindo
Dos desenhos animados nas tardes geladas
Sob o cobertor velho e xadrez
Como têm de ser os dias de náusea.
E como eu delas gostava
E agora as vejo na bolsa, e sorrio
Da cegueira parcial do passado
A doce nostalgia das rosquinhas de glacê

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Ora, e não é que cá estão poesias? Decerto, um pouco doídas, magoadas da minha implicância, que sempre as esconde, e que delas nunca se orgulha como à mãe parece decente. Mas estão aqui, e sinto a ideia assim exposta porque não as acho as melhores. Agora, um detalhe: que quer aquela que não é minha, de seis versos, curto trejeito, acompanhando o trajeto, que no ônibus sempre me espanta? Ela está lá, e me assusta sua pontualidade. Já se foram três, cinco, oito vezes. Me faz sorrir enquanto sigo pra casa, tonta desses acasos estranhos. E diga-se que já a acho bela, velha, familiar. Ganhou ou perdeu poesia nesse caminho de aproximação?

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Para não esquecer, para nem lembrar

setembro 21, 2010

Um pouco defasado, e tampouco resultou no que eu queria. Enfim, apenas apontamentos a compartilhar.

Sábado (4 de setembro) à noite tive uma fantástica conversa – e muitos desdobramentos, como convêm aos bons colóquios – sobre política. Aos finais de semana costumo sentar à mesa com meu pai e ali ficamos, por mais tempo do que inclusive eu deveria, debatendo ideias e, principalmente, divergências. Nesse sábado, no entanto, a companhia era outra. Não importa, posto que deliberar sobre o assunto sempre faz brilharem minhas pupilas como as de uma criança faceira. Mas à discussão política cabem peculiaridades quase protocolares que garantam o sucesso: que não haja extremismo, que não haja lugar comum, que não se defendam anacronismos. É só o diálogo, pura e simplesmente, sem prejuízo pessoal e, se possível, sem abuso de repetições.

E daí penso o quão fantástico seria se o mundo fosse mais adequado às ideias postas no papel. Não, jamais, nunca. O advento das instituições, sabe-se, já implica em corrupção. O nascimento é ruptura (e não é, mesmo fisiologicamente?). E a “corrupção brasileira”, dessa forma entificada, não é privilégio da nação. Assim como quem apenas critica, demonstrando que muitas vezes ocupa-se demasiadamente do pensamento/atitude alheios, somos mais ferozes com aquilo que está próximo, quer seja porque achamos que nossa opinião terá assim mais autoridade, quer seja porque é mais cômodo. No entanto, estar perigosamente próxima das casas políticas, que é o que eu faço há mais de dois anos, corrobora algumas opiniões. Há a violência, a hipocrisia, o cinismo. Não são apenas clichês, e são velhas verdades, afinal de contas. E se me estupram com sorrisos, eu estupro os meus próprios, na violência da política como a conhecemos, instituição forjada e predadora, parasitária de pessoas, comensal de outras, via única e triste. Fundamentalmente politiqueira.

Das pessoas que crêem que todo aquele que se envolve está inevitavelmente tomado pelos mesmos vermes, da lascívia contida nos olhares, donde julga-se prostituição mesmo na indiferença, dos desmandos dos que se consideram investidos de um poder que não pode ser profanado. Desde algum tempo, a politicagem já não me revolta. Agora sinto meus olhos secos, plenos de desesperança. A politicagem agora me amedronta e entristece. E quisera ainda indignação, quando acreditaria noutras possibilidades. Mas as ideias permanecerão sublimadas por lacunas. Vencerão sorrisos, caras de competência, vínculo afetivo com o cidadão (título figurativo), apertos de mão pré-eleitorais, e pouco, muito pouco a dizer. Novas ferramentas, adesão ao mundo virtual, regramentos e jargões nos dizem, assim como a mantida poluição visual, que não há nada de novo, infelizmente.

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De um que me escapou

setembro 13, 2010

Se não fluem meus poemas
Deixo que fiquem
No baú angustiados
Inanimados
Mortos de medo
De exporem-se à luz
E me sinto plena de dor
De aprisioná-los em mim
E quero soltá-los
Mas são crianças
Pequenas e brandas
E tristes como flor dos dias cinzas
E corolas doentes
Das cabeças dementes
Que pensam
E pensam
E demoram-se a sentir.
Um conto bonito.
Com as páginas rasgadas.

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Depois que perdi meu caderno, com o último dos poemas que eu gostava, parece-me dolorido o passar dos dedos. Sinto a velhice nos meus escritos, a poeira que os envolve, e que pelo menos não lhes dá mais o ar infantil dos primeiros amores, aqueles que se perdem em seu próprio arrebatamento. Depois de esquecer que preciso escrever, e é algo que me consome, entendo que as rimas são os grandes venenos da poesia. Deixe que fiquem assim incertas, assim imperfeitas, que é de onde são belas como a irregularidade dos dias (e dos sentidos).

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Exangue

agosto 9, 2010

Tem-me atenta uma rima rouca. Poema morto dos versos cinzas.

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Antagônicas

agosto 5, 2010

As vozes loucas dos sonhos
Falam-nos sempre baixinho
No início, até que se alteram
E cantam
E cantam um samba, um poema
Um ditado popular
Bradam tons em três acordes
Um som simples, um sorriso grande
Clamam
Que amemos, sejamos, roubemos
As linhas dos olhos e as rimas da boca
E sonhemos.
Surdos de sonhos, felizes tempos

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Sempre assolou-me a dúvida entre tentar a percepção oriental, de abandono dos desejos, e essa nossa, de querer, querer, querer. Ainda não tenho resposta, e quem sabe se alguém algum dia a terá. No entanto, enquanto não consigo ficar sem sonhar, movimento-me. Tanto que me deixam tristes cada uma das imersões no blog, para tirar as tantas teias de aranha que se acumulam entre as palavras e os muitos espaços em branco. Esta foi uma escolha subordinada, quanto a qual peço desculpas a mim mesma.