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Da tristeza

dezembro 15, 2010

Queria apenas um veneno, um líquido viscoso para engasgar a dor, enquanto soluçavam a garganta, a língua e os dedos trêmulos. Queria um motivo para findar a tristeza, que, ela tão sem motivo, tomara-a de tal forma que agora a levava no colo, como a um pássaro doente. Queria, e não sabia se queria, negar os olhos baços, a boca seca, o corpo cansado. A alma inerte, parece morta, parece alva, parece velha e cheia de anéis. Parece triste, como nunca outrora, e já deixa que lhe comam vermes famintos, e já está plena de asco. E a dor, tão grande que não cabia, não sabia donde vinha, não sabia, e doía a ignorância, e doía a pena, a conservação e o calor. E doía a denúncia, a condolência, o fardo e o castigo de ser dor sem ideia, sem trejeito, sem qualquer lembrança. E aos poucos dormia, e em sonho era só o que fazia, e chorava um choro túrgido e vago, uma lágrima seca que lhe perfurava o fundo dos olhos.

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(a)Braços

novembro 8, 2010

Um braço enlaçado noutro
E um deles que demais doado
O meu, se divide demasiado
São meus membros compartidos
Até que doam
Até que sangrem
Até que morram
E morrem em cada partida
Em cada sofrer da mão alheia
E se levam por outros braços
Frouxos, e além egoístas
E rastejam até que se enlaçam
E passam
Sem que os meus deixem ilesos.
Meus braços são só linhas tristes.

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Tempo seco

novembro 4, 2010

Um suspiro. Mais um. Precoce veio a dor que acalentou a manhã de calor doente. E engraçado que soou ligeira, libertou-se fácil entre as lágrimas quentes, repletas de um desespero silencioso. E doeu, sincera, como se prenunciasse a anestesia. Os pingos salgados, aos poucos parcos, negaram-se a deixar os olhos. Caíam enquanto ninguém os via, caíam sob o disfarce das lentes, sob o rosto impassível que não se quer denunciar. E muitos se foram, e outros tantos deixaram os lábios salgados. Não cessaram enquanto estiveram atentos os olhos, antes que o sono vingasse as lágrimas e o cansaço. E as ideias, que eram tantas, eram tolas, eram tontas. Uma colher confusa no açucareiro, construindo e refazendo a casa doce e estúpida. E havia medo, daquele dentre os temores bobos das convenções, que dizem que é preciso encontrar-se e jamais perder. E nunca perder-se, e nunca morrer em vida. Quando se morre um pouco a cada dia, e noutros mais que em uns, e neste demasiado… Se fosse um poema, viria repetido, carregado dos mesmos versos infalíveis, que todos juntos seriam nada. Apenas estrofes toscas, apenas escolhas vãs. Vãs: inexoráveis. É o que se tem, é do que se duvida. Havia o medo da perda, de não ser o que é preciso, de estar aí a conflagrar vidas alheias, e nelas não depositar nada de bom. Daquelas tristezas que deviam morrer tímidas, sem sequer aparecer antes que se percebam modorrentas como o dia.

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Açúcar da infância

setembro 27, 2010

Diziam mais do que eram simples
Me salvariam da tristeza
Da doença, os olhos baços
O estômago vazio e o asco
A ânsia das ideias e o medo
Retiveram-me hoje na infância
Nas mãos repletas da mãe
Das veias azuis, pretensiosas surgindo
Dos desenhos animados nas tardes geladas
Sob o cobertor velho e xadrez
Como têm de ser os dias de náusea.
E como eu delas gostava
E agora as vejo na bolsa, e sorrio
Da cegueira parcial do passado
A doce nostalgia das rosquinhas de glacê

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Ora, e não é que cá estão poesias? Decerto, um pouco doídas, magoadas da minha implicância, que sempre as esconde, e que delas nunca se orgulha como à mãe parece decente. Mas estão aqui, e sinto a ideia assim exposta porque não as acho as melhores. Agora, um detalhe: que quer aquela que não é minha, de seis versos, curto trejeito, acompanhando o trajeto, que no ônibus sempre me espanta? Ela está lá, e me assusta sua pontualidade. Já se foram três, cinco, oito vezes. Me faz sorrir enquanto sigo pra casa, tonta desses acasos estranhos. E diga-se que já a acho bela, velha, familiar. Ganhou ou perdeu poesia nesse caminho de aproximação?

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De um que me escapou

setembro 13, 2010

Se não fluem meus poemas
Deixo que fiquem
No baú angustiados
Inanimados
Mortos de medo
De exporem-se à luz
E me sinto plena de dor
De aprisioná-los em mim
E quero soltá-los
Mas são crianças
Pequenas e brandas
E tristes como flor dos dias cinzas
E corolas doentes
Das cabeças dementes
Que pensam
E pensam
E demoram-se a sentir.
Um conto bonito.
Com as páginas rasgadas.

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Depois que perdi meu caderno, com o último dos poemas que eu gostava, parece-me dolorido o passar dos dedos. Sinto a velhice nos meus escritos, a poeira que os envolve, e que pelo menos não lhes dá mais o ar infantil dos primeiros amores, aqueles que se perdem em seu próprio arrebatamento. Depois de esquecer que preciso escrever, e é algo que me consome, entendo que as rimas são os grandes venenos da poesia. Deixe que fiquem assim incertas, assim imperfeitas, que é de onde são belas como a irregularidade dos dias (e dos sentidos).

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Exangue

agosto 9, 2010

Tem-me atenta uma rima rouca. Poema morto dos versos cinzas.

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Antagônicas

agosto 5, 2010

As vozes loucas dos sonhos
Falam-nos sempre baixinho
No início, até que se alteram
E cantam
E cantam um samba, um poema
Um ditado popular
Bradam tons em três acordes
Um som simples, um sorriso grande
Clamam
Que amemos, sejamos, roubemos
As linhas dos olhos e as rimas da boca
E sonhemos.
Surdos de sonhos, felizes tempos

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Sempre assolou-me a dúvida entre tentar a percepção oriental, de abandono dos desejos, e essa nossa, de querer, querer, querer. Ainda não tenho resposta, e quem sabe se alguém algum dia a terá. No entanto, enquanto não consigo ficar sem sonhar, movimento-me. Tanto que me deixam tristes cada uma das imersões no blog, para tirar as tantas teias de aranha que se acumulam entre as palavras e os muitos espaços em branco. Esta foi uma escolha subordinada, quanto a qual peço desculpas a mim mesma.